O Paraíso Perdido - John Milton

A epopéia Paraíso Perdido recria o conflito entre Lúcifer e Deus com a metafísica monista e uma espécie de materialismo cristão.

BREVE ANÁLISE: PARAÍSO PERDIDO – JOHN MILTON

Por: ANA CLAUDIA BRIDA
PROFESSORA ESPECIALISTA

''Lúcifer Expulso do Céu'', gravura de Gustave Doré para o ''Paraíso Perdido'' de John Milton.Vida e Obra

John Milton (1608-1674) nasceu em Londres e a sua vida é geralmente dividida em três fases: a de estudante e seus primeiros poemas e sonetos em latim, italiano e inglês; a de polemista, quando escreve principalmente em prosa – peças teatrais, ensaios sobre a política e a religião – tendo inclusive, ocupado o posto de Ministro das Relações Exteriores do governo de Oliver Cromwell (diz-se que durante essa fase, teria viajado à Itália e se encontrado com Galileu); e o período de reclusão, quando escreve seus maiores poemas. Foi nesta última fase da vida, pobre e completamente cego, que ele ditou a sua mais importante obra, o Paraíso Perdido.


O site do Instituto Gutenberg, traz ainda, como grandes feitos e obras de Milton: a Areopagítica, um ensaio sobre a liberdade de imprensa; o jornal Mercurius Politicus, folha de apoio à política de Oliver Cromwell em favor do puritanismo calvinista na Inglaterra; Doutrina e Disciplina do Divórcio, ensaio onde expressava profundamente o seu desagrado com o matrimônio e a sua opinião a favor da separação dos cônjuges com incompatibilidade de gênios; vários poemas nas mais diversas línguas; e a continuação de Paraíso Perdido, Paraíso Reconquistado, menos extenso que o primeiro e que narra a história de Jesus no deserto e a sua vitória sobre Satã.
Paraíso Perdido é o mais conhecido dos poemas épicos da língua inglesa e os grandes poetas épicos do mundo são tão poucos que se podem contar pelos dedos, como afirma A.H. Robertson (de uma única mão). Essa forma particular do estilo artístico, tal como a conhecemos hoje, surgiu, pela primeira vez, no campo da literatura com as obras de Homero, atingindo a plenitude da sua pujança em Virgílio. Se bem que se possam encontrar na literatura anglo-saxônica e islandesa outros exemplos de poesia épica, a verdade é que a tradição clássica foi mantida na Divina Comédia por Dante Alighieri, que compôs a sua obra no mesmo país, e, substancialmente, na mesma linguagem de Virgílio. De fato, o guia, escolhido por Dante, para conduzi-lo através do Inferno e do Purgatório, foi justamente Virgílio.
Mais tarde, a tradição da poesia épica foi exemplificada por Camões n’Os Lusíadas, poema que é também uma expressão do gênio latino.
Milton, desde muito jovem, decidira dedicar-se à composição de um poema épico que se tornasse posteriormente uma obra clássica da literatura inglesa; ao realizar o seu intuito, elegeu um ambiente em harmonia com a tradição clássica, mas instilou nele um tema inspirado em sua própria natureza religiosa.
E como já de muito planejara sua epopéia, Milton somente iria finalizá-la e publicá-la em 1667, depois de haver participado ativamente nas discussões “pré-revolucionárias”, depois de haver participado do governo Cromwell e depois de haver se decepcionado com a política inglesa. Jogado no ostracismo, sofrendo de gota e cego, o velho poeta, como o caracteriza Luiz Fernando Ferreira Sá, não tinha o hábito de colocar os seus inimigos políticos no Inferno, como Dante o havia feito. Mas o velho poeta respeitando sua liberdade e uma possibilidade de escolha, independente de seus méritos individuais, esses sim passariam uma eternidade prostrados no “buraco mais negro e fundo do Inferno”.

Paraíso Perdido

Paraíso Perdido fala, em seus doze capítulos (chamados “livros”) e mais de 10.500 versos sobre a queda de Satã e o pecado original. E já nos três primeiros versos o anuncia:

Do homem primeiro canta, empírea Musa,
A rebeldia – e o fruto, que, vedado,
Com seu mortal sabor nos trouxe ao Mundo...

O livro The Wordsworth Companion to Literature in English, oferece-nos um resumo de cada livro que abrange o poema:

Livro I: O argumento do poema é sobre a Queda do Homem, as origens da sua desobediência às leis de Deus, alteradas por Satã para se vingar pela sua expulsão do Céu. Primeiro, são apresentados Satã e os anjos rebeldes vivendo no lago ardente. Ele desperta seus seguidores e lhes fala que há esperança de reconquistar o Céu. Ele os organiza em legiões, nomeando os líderes e lhes conta sobre a existência de um novo mundo criado em algum lugar na escuridão absoluta do Caos. Então ela organiza um conselho e o palácio de Satã, o Pandemônio, é construído.

Livro II: Satã e seus seguidores debatem se devem ou não empreender uma nova guerra para reconquistar o Céu. Finalmente, eles decidem investigar o novo mundo: o próprio Satã é quem irá. Ele passa pelos Portões do Inferno através das sentinelas gêmeas, Morte e Pecado,e viaja pelo reino do Caos.

Livro III: Deus observa a viagem de Satã ao mundo recém criado e prediz como Satã terá sucesso provocando a Queda do Homem e como Deus castigará ao Homem por ter caído em tentação. O Filho de Deus se oferece em resgate pelo Homem, para responder pela ofensa e sofrer seu castigo. Para a alegria celeste, Deus aceita e programa sua encarnação para um dia futuro. Enquanto isso, Satã chega às bordas do universo; ele passa pelo Limbo da Vaidade e chega ao Portão do Céu, onde muda sua forma para enganar Uriel, Guardião do Sol. Dele descobre o paradeiro do novo mundo, e sobre o Homem, a criatura que Deus colocou lá.

Livro IV: Satã chega a terra e encontra o Jardim do Éden, onde observa Adão e Eva. Eles falam sobre a Árvore do Conhecimento e Satã decide concentrar sua atenção nisto. Enquanto isso, Uriel descobriu que um dos caídos escapara do Inferno, e adverte Gabriel, que o encontra ao lado de Eva, tentando conquistá-la num sonho. O tentador é expulso.

Livro V: Eva acorda, aborrecida por causa do seu sonho tentador, e é confortada por Adão. Deus envia Rafael a Adão: para que o homem possa conhecer a natureza do seu inimigo e a necessidade de obedecer a Deus, Rafael lhe conta sobre a revolta de Satã no Céu. Satã havia juntado muitos para lhe ouvir e proclamou a sua resistência à autoridade suprema de Deus.

Livro VI: Rafael continua a sua narrativa. Miguel e Gabriel comandam o exército do Céu, mas é o Filho de Deus que decide o resultado. Ele ordena que seus anjos se ajuntem e então do centro, ele manda diretamente Satã e suas legiões, guiando-os para os muros do céu, caírem para o Fundo do Inferno. A passagem onde o Filho monta o seu ataque aos rebeldes é o centro literal e temático do poema, será a conseqüência indireta da desgraça futura do Homem.

Livro VII: Rafael conta a Adão que Deus, depois da derrota de Satã, criou um outro mundo, no qual o homem possa aspirar ao Céu. Ele envia o Filho para executar a Criação em seis dias.

Livro VIII: Adão pede o conhecimento acerca dos corpos celestiais e Rafael fala que a sua primeira necessidade é conhecer o seu próprio mundo. Então Adão comenta com ele sobre Eva, e a paixão que ela lhe desperta. O arcanjo também o adverte para prestar atenção aos seus instintos mais altos, para que não seja subordinado ao amor de Eva. Então Rafael parte.

Livro IX: Enquanto isso, Satã volta a noite ao Éden e como uma névoa entra numa serpente adormecida. Ele encontra Eva trabalhando sozinha e fala agradavelmente com ela, enquanto exalta sua beleza. Eva fica curiosa de como a criatura conseguiu o dom da fala. Ele lhe conta que ganhou isto comendo o fruto de uma certa árvore do Jardim que lhe mostra, a Árvore do Conhecimento. Com a sua aprovação, ele faz com que Eva se resolva e ela come o fruto. Satã desliza para fora do Jardim e, enquanto Eva sente sua consciência se transformar, recolhe mais frutos e vai com isto até Adão, que percebe imediatamente que ela está perdida. Também ele come do fruto para compartilhar a sua transgressão: caem juntos. A sua inocência parte: eles procuram cobertura para sua nudez e as sementes da dissensão são mostradas.

Livro X: Depois da transgressão, os anjos da guarda voltam ao Céu. O Filho de Deus vai até o Éden para pronunciar o julgamento de Adão e Eva (como relatado no Livro de Gênesis). Antes que eles deixem o Jardim, ele os veste com piedade pela vergonha da sua nudez. Satã volta triunfante para o Inferno, daqui em diante um caminho está aberto para o Pecado e a Morte entrarem no mundo do Homem. Adão e Eva se aproximam do Filho de Deus em arrependimento e súplica; implorando a mitigação da destruição pronunciada aos seus filhos.

Livro XI: O Filho de Deus intercede junto ao Pai, mas Deus declara que Adão e Eva devem ser expulsos do Paraíso. Miguel desce ao Jardim e lhes fala que devem ir para o mundo que ele mostra a Adão no ápice de uma colina. Também é mostrado para Adão o que acontecerá no mundo até o Dilúvio.

Livro XII: Miguel continua a lhe falar sobre o mundo, enquanto conta sobre Abraão e sobre o Messias prometido pela intercessão do Filho. Adão é confortado por essas revelações; ele desperta Eva adormecida e Miguel os conduz para fora do Jardim.
A queda do homem, devida à desobediência de Adão e Eva no Jardim do Éden, residiu no pecado original do qual resultou o sofrimento da humanidade, que se prolonga até os dias atuais. Os pontos essenciais do tema foram tirados do livro do Gênesis; o interesse capital da narrativa do Paraíso Perdido reside na maneira como John Milton desenvolve o tema.
Como nos diz A.H Robertson, não é Adão, mas Eva, quem comete o pecado original, desobedecendo a Deus; é difícil distinguir o motivo predominante ao qual deve-se atribuir a sua fraqueza, como é difícil precisar as causas determinantes das ações humanas; existe nelas um complexo de razões diversas que se pode definir, em resumo, como impulso dos desejos ou paixões sobrepondo-se à voz da razão, e essas paixões podem ser o desejo de ser admirável, o desejo de sobrepor-se ao homem, ou o desejo de alcançar uma graça e estar mais próxima de Deus.
Na queda de Adão, não se nota a influência de qualquer interesse próprio, de ambição, orgulho ou pecados similares, mas apenas o motivo cavalheiresco inspirado pelo seu amor por Eva. Não há pressão que o mova, além do seu livre-arbítrio em querer afundar-se na perdição junto à sua amada:

Então ele, de escrúpulos despido,
Sabendo bem o que fazia, come
Não enganado, mas louco e vencido
Pelo poder dos feminis encantos.

Personagens

Adão e Eva são mostrados em seu ambiente, como seres repletos de imaculada inocência e ao mesmo tempo curiosos do saber, do descobrir o quanto mais possam das glórias de Deus.
Eva é mulher doce, meiga e que auxilia ao amado nos seus afazeres; unicamente perde-se talvez por sua curiosidade exacerbada e pelos desejos malignos de volúpia, glória e poder, colocados em seu coração por Satã. Após ter provado do fruto, seu caráter transmuda-se para uma mulher sensual e determinada.
Adão, aparentemente é apresentado mais submisso que a própria Eva, e até mesmo com o coração mais repleto de bons sentimentos do que ela. Sua curiosidade não desperta vontades maléficas, mas sim questionamentos, que os faz em inocência. Seu amor demasiado por Eva é advertido pelo arcanjo Rafael, mas infelizmente, é este sentimento a sua própria ruína. Ao ver Eva amaldiçoada, ele não sucumbe à tentação, mas apela para seu livre-arbítrio e lhe estende a mão sobre o abismo. Posteriormente, aos efeitos do fruto, parece mais decepcionado do que Eva, e para ser confortado, o Filho de Deus, envia-lhe Miguel para acalmá-lo e prepará-lo para o patriarcado que estabeleceria na nova terra além do Jardim.
Satã é, em Milton, o símbolo da queda moral, mas quando Milton nos apresenta o Anjo Decaído como um objeto empurrado e precipitado do céu, ele apaga a luz do símbolo. De nada serve, para excitar a nossa imaginação dinâmica, dizer-nos que Satã, precipitado do céu, caiu durante nove dias. Essa queda de nove dias não nos faz sentir o vento da queda, e a imensidade do percurso não aumenta o nosso pavor. Se nos dissessem que o demônio caiu durante um século, não veríamos o abismo como mais profundo. Quão mais ativas serão as impressões em que o poeta sabe comunicar-nos a diferencial da queda viva, isto é, a própria mudança da substância que cai e que, caindo, no instante mesmo de sua queda, se torna mais pesada, mais falível. Essa queda viva é aquela de que trazemos em nós mesmos a causa, a responsabilidade, numa psicologia complexa do ser decaído. Aumentaremos a sua tonalidade unindo causa e responsabilidade. Assim tonalizada moralmente, a queda já não pertence à ordem do acidente, mas à ordem da substância.
Satã, sabe que, na verdade, o Céu e o Inferno estão dentro da mente de cada um; que a mente pode transformar o Céu num Inferno, e vice-versa. Portanto, já que a sua mente não vai mudar, não importa onde ele esteja, é melhor reinar no Inferno que servir no Céu. Eis os versos:

Mundo infernal! E tu, profundíssimo Inferno,
Recebe teu novo dono o que traz uma
Mente que não mudará com o espaço ou tempo.
A mente é seu próprio lugar e em si mesma
Pode fazer um Céu do Inferno, um Inferno do Céu.
Que importa onde, se serei sempre o mesmo
Aqui ao menos seremos livres...
Podemos reinar com segurança; e, ao meu ver,
Reinar é uma boa ambição, embora no Inferno:
Melhor reinar no Inferno que servir no Céu.

O poema abre no momento em que Satã volta a levantar a cabeça, depois da rebelião e da inexorável derrota. O anjo rebelde ergue-se sobre a margem do lago ardente, sinistramente grande, e convoca as suas legiões. As dispersas forças do Mal emergem pouco a pouco em turbilhões à sua volta. Ajudado pelo segundo príncipe do Inferno, Belzebu, seu lugar-tenente, reanima, reorganiza, dá instruções, até que os batalhões reassumam a ordem e a disciplina para formar o exército infernal. Depois de uma longa enumeração dos demônios, abrem-se as portas de Pandemônio, sua capital, para acolher os representantes do exército, que se reúnem em concílio. O congresso infernal assemelha-se bastante a uma assembléia de homens, a uma sessão no parlamento, ou outras de gênero. Como sempre sucede com os demônios de Milton, as paixões que se agitam em Pandemônio não são diversas das humanas, mas agigantadas, exacerbadas. Satã anuncia o tema da discussão: continuando firme o propósito de prolongar a luta contra Deus, trata-se de decidir como encará-la – se mover guerra aberta ou recorrer ao engano e à fraude, meios mais seguros e menos perigosos. Os demônios, que ainda não esqueceram o sabor da derrota, não parecem muito inclinados para uma nova guerra; querem antes curar as feridas, acalmar um pouco, tomar fôlego. Quando, escolhendo psicologicamente o melhor momento, Satã lhes anuncia a existência de um mundo novo acabado de criar por Deus, mais fraco do que eles, e por conseguinte, mais vulnerável, todos aprovam entusiasticamente a idéia de ferir Deus através das suas criaturas. E Satã, que, como todo bom líder, levou habilmente a assembléia a aprovar tudo quanto ele mesmo desejava, oferece-se para a empresa. Sai do Inferno, voa através do espaço, passa os domínios do Caos, e surge enfim na luz do mundo criado. Aqui, Adão e Eva levam uma esplêndida vida nos jardins do Éden, e Satã espreita-os com raiva, inveja, mordido, abrasado pelas mais abjetas paixões que fazem um inferno sua alma.
Satã, já antes, a partir do Éden, explorara as terras e os mares; alcançara o Ponto Euxino e a lagoa Meótida, subindo para lá do rio Obi, descendo depois até ao longínquo Pólo Antártico; e no sentido do Ocidente, viajara do rio Oronte até ao sítio onde o istmo de Darién barra o oceano e, daí, ao país onde correm o Ganges e o Indo. Vagueou assim por todo o Globo, observando profundamente cada criatura, sempre em busca daquela que, de entre todas, seria a mais adequada aos seus astuciosos intentos. E, nesse minucioso exame, acabou por descobrir que a serpente, de entre os animais que nos campos habitavam, era o mais astuto de todos eles.
Depois de muito meditar, irresoluto e enredado nos seus próprios pensamentos, Satã, decidindo-se finalmente, escolheu-a como instrumento das suas enganosas maquinações, como o esconderijo apropriado onde ele poderia entrar e esconder do mais arguto olhar as suas negras premeditações; e isso porque, estando ele dentro da astuta serpente, ninguém, nem mesmo o mais desconfiado, suspeitaria de que os ardis fossem provenientes do malévolo espírito que a habitava, antes os atribuindo à agilidade mental e subtileza com que a Natureza dotara aquele réptil, ardis que, se observados noutros animais, poderiam fazer surgir a desconfiança de, dentro deles, e em vez do instinto que lhes era próprio, atuar um diabólico poder. Satã tomou, pois, esta decisão. Mas, dilacerado no mais profundo do seu ser, e inflamado de paixão, deixou estes lamentos:

Em hebraico, o fragmento relativo à serpente fala assim:
wëhannachash hayah ´arûm mikol chayyath hasadeh `äsher ´asâ YHWH `ëlohîm wayyomer `el-ha`ishâ `af kî-`amar `ëlohîm lo` tho`klû mikol ´eç hagan:
(E) a serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens que o SENHOR Deus fizera; e disse à mulher: “É verdade ter-vos Deus proibido comer o fruto de alguma árvore do jardim?”.
E o episódio conclui da seguinte forma:
kî ´asîtha zzoth `arûr `atâ mikol-habbëhemâ ûmikol chayyath hassadeh:
“Por teres feito isto, serás maldita entre todos os animais domésticos e entre os animais selvagens”.

Embora, no início do poema, Satã manifeste alguns atributos de nobreza, embora pervertidos pelo seu critério, o seu verdadeiro caráter revela-se no desenrolar do poema. Cada elocução que pronuncia é uma exaltação do conceito em que se tem e do seu amor-próprio. A.H. Robertson traz-nos o dizer de C.S. Lewis, de que Satã evolui de herói para general, de general para político, de político para espião, depois assume o aspecto de qualquer coisa que espreita pela janela do quarto de dormir ou do banheiro, a seguir para um sapo, e, finalmente para uma serpente. Alguns críticos, pensam que, no início do poema, Milton imprime a Satã um aspecto demasiadamente nobre, esforçando-se depois em corrigir seu erro, degradando-o subseqüentemente. Apreciar-se-ia mais exatamente a verdade, se dissesse que Milton atribui a Satã, no princípio da sua obra, as qualidades do orgulho e do conceito próprio, que por si mesmas são as causas da sua progressiva degradação e aviltamento.
O Satã de John Milton não é um personagem fácil, óbvio. É complexo e ambíguo. No The Wordsworth Companion to Literature in English, ele é descrito como um personagem dramático, com uma astúcia maliciosa e facilmente reconhecível em seus caracteres. Ás vezes, até identifica-se com ele em suas dúvidas e ambigüidades. Mas é possível que seja justamente isso que Milton queria mostrar: Céu e Inferno, são de fato, o que o Homem carrega dentro de si.
Descreve-se mais detalhadamente a maneira como John Milton apresenta Satã porque esse é o personagem mais notável da epopéia, e também o mais divergente. Os outros são analisados mais rapidamente, por serem os receptores do drama da grande tragédia bíblica e humana.
Quanto ao retrato que Milton traça do Padre Eterno, deve confessar-se que não é realmente convincente. Mas, de acordo com A.H. Robertson, onde existe um mortal capaz de descrever Deus de maneira adequada? Já a forma como é apresentado o Messias se afigura muito mais feliz, embora se deva frisar que se trata da segunda pessoa da Trindade, e não do Cristo dos evangelhos. Para muitos autores, justamente a passagem central da história e que se precipitará no acontecimento catastrófico do final, é justamente o ato da batalha em que o Filho de Deus organiza o exército celestial e depõe as forças de Satã e de sua legião.

De ponto em branco empireamente armado
Co’o mais lustroso do arsenal divino,
O Unigênito sobe ao carro ingente:
À destra sua assenta-se a Vitória...
Não a vós, mas a mim, professam, juram
Todo desprezo e inveja, a raiva toda,
Porque meu Pai, que do alto Céu possui
A glória, o poderio, a majestade,
De honras me cumulou, cumpriu seu gosto.
Encarregou-me a mim de exterminá-los.

Milton ainda foi criticado por encobrir dentro do poema, certos acontecimentos contemporâneos do pensamento científico e intelectual (as ambigüidades astronômicas no Livro VIII, por exemplo), mas o realismo do poema é como o mito, e a credibilidade depende das formas de convicção Cristã ao invés de qualquer detalhe histórico específico. Como um poema longo é uma realização monumental, ambos o intelectualismo como trabalha a imaginação literária, como as expansões poderosas do seu verso que, com a força dos precedentes clássicos atrás disto, provou ser inimitável.

BIBLIOGRAFIA
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  • http://www.frotaestelar.com.br/trekkercultura/tc15.html
  • http://fgc.math.ist.utl.pt/religion/queda.htm

Um comentário:

Claudia disse...

Olá, obrigada por postar minha análise em seu Blog. Precisamos hoje e sempre divulgar a importância da literatura. Um grande abraço. Ana Claudia Brida.

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