Esaú e Jacó - Machado de Assis

A narrativa trava um diálogo tenso e constante com o leitor.



jaco e esau2Esaú e Jacó é o penúltimo livro de Machado de Assis, lançado 4 anos antes da sua morte e, segundo a maioria dos críticos, em pleno apogeu literário, depois de escrever, em 1899, Dom Casmurro, o mais célebre de seus livros.

Esaú e Jacó se destaca por consolidar esta suave maestria no domínio da narrativa. Machado despoja-se da excentricidade ocasional num texto que abandona resquícios do picaresco e envereda num realismo que retoma a melancolia e o lirismo que se iniciara na primeira fase de sua produção literária. Destaque são os personagens muito próximos da vida real.

O Conselheiro Aires é um personagem poderoso que contracena com Natividade, mãe dos gêmeos Pedro e Paulo, que protagonizam este romance. E Machado chega quase à perfeição formal ao estabelecer esta trama fascinante onde os iguais são opostos e concorrentes. Discordam na política, na vida, sempre em campos opostos, um contra o outro, chegando mesmo a cortejar a mesma mulher.

A ambigüidade narrativa se instaura com o Conselheiro Aires, personagem e narrador, que no entanto, também é visto a partir de uma terceira pessoa. Machado por esse jogo de opostos pode comentar um tempo de grande agitação política. Não sendo estranho ao livro temas como abolição da escravatura, encilhamento e Estado de sítio, porém o tema melhor abordado e reconhecido é a Proclamação da República, a qual se faz uma tremenda crítica.

ESAÚ E JACÓ DE MACHADO DE ASSIS

Por Frederico Barbosa
poeta e professor de literatura

Índice



INTRODUÇÃO

No seu penúltimo romance, Machado de Assis inventa uma nova forma de narrar e apresenta uma alegoria das disputas políticas brasileiras do seu tempo através da história de dois gêmeos irreconciliáveis.

DO ROMANTISMO AO REALISMO

A obra de Machado de Assis pode ser dividida em duas fases. A primeira compreende as obras da juventude, com forte influência do Romantismo, como os romances Ressurreição (1872), A Mão e A Luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878). O seu estilo apresenta um progressivo amadurecimento, até chegar ao Realismo de suas obras posteriores. Entre estas, destacam-se os cinco romances do período: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908).
Os dois últimos romances do autor de Dom Casmurro não têm a reputação crítica das suas três obras-primas iniciais do Realismo. No entanto, em Esaú e Jacó e Memorial de Aires, Machado de Assis atinge o ápice de sua preocupação com climas, ambientes, situações existenciais sutis e delicadas. “— E andam críticos a contender sobre romantismos e naturalismos!” Exclama Aires em seu Memorial. Alheios a toda essa contenda, os narradores dos romances, como Machado de Assis, seguem interessados em investigar a fundo o caráter e a psicologia complexa das personagens.

ROMANCES INTERLIGADOS

Ao escrever Quincas Borba (1891), Machado de Assis reutilizou um personagem já falecido no seu romance anterior, Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), o filósofo enlouquecido Quincas Borba. Assim, os romances se interligam não exatamente através da personagem, mas através da Teoria do Humanitismo que o filósofo transmite a Rubião, o protagonista do romance.
Também Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908) se encontram interligados. Une-os a figura sábia e diplomática do conselheiro José da Costa Marcondes Aires, fino observador das sutilezas da psicologia humana.

Na Advertência de Esaú e Jacó lemos:

“Quando o conselheiro Aires faleceu, acharam-se-lhe na secretária sete cadernos manuscritos, rijamente encapados em papelão. Cada um dos primeiros seis tinha o seu número de ordem, por algarismos romanos, I, II, III, IV, V, VI, escritos a tinta encarnada. O sétimo trazia este título: Último.
A razão desta designação especial não se compreendeu então nem depois. (…)Era uma narrativa; e, posto figure aqui o próprio Aires, com o seu nome e título de conselho, e, por alusão, algumas aventuras, nem assim deixava de ser a narrativa estranha à matéria dos seis cadernos. (…)
Nos lazeres do ofício, [Aires]escreveu o Memorial, que, aparado das páginas mortas ou escuras, apenas daria (e talvez dê) para matar o tempo da barca de Petrópolis.
Tal foi a razão de se publicar somente a narrativa. Quanto ao título, foram lembrados vários, em que o assunto se pudesse resumir, Ab ovo, por exemplo, apesar do latim; venceu, porém, a idéia de lhe dar estes dois nomes que o próprio Aires citou uma vez: ESAÚ E JACÓ”

Os primeiros seis cadernos trazem a matéria ficcional que daria origem ao romance de 1908, Memorial de Aires. Em vários momentos da narrativa de Esaú e Jacó, nos deparamos com o Conselheiro Aires escrevendo seu Memorial. Algumas das palavras com que registra os acontecimentos ou suas reflexões são reproduzidas pelo narrador.

A NARRATIVA

O enredo de Esaú e Jacó centra-se na história dos gêmeos Pedro e Paulo, simetricamente opostos. Suas brigas, que se iniciam no útero materno, estendem-se por toda a vida. Seus temperamentos são invertidos: Pedro é dissimulado e cauteloso, Paulo é arrojado e impetuoso. Na política, encontram campo fértil para dar vazão às suas animosidades: Paulo é republicano e Pedro monarquista. O primeiro vai cursar Direito em São Paulo, o segundo Medicina no Rio de Janeiro. Une-os o amor extremado pela mãe, Natividade, e separa-os a paixão por Flora, a “inexplicável”, segundo o conselheiro Aires, que se junta à mãe no esforço de aproximar os rapazes.
Com a morte de Flora, os dois irmãos pareciam rumar para a reconciliação, logo frustrada. Nem mesmo o último pedido da mãe, que no leito de morte pede-lhes que sejam amigos, consegue uni-los por muito tempo. Ao final do romance, Aires constata que sempre foram inimigos e que, ao que tudo indica, sempre o serão. Em certo momento da narrativa, o conselheiro afirma que as razões para tantas brigas não são conhecidas:
“ – Esaú e Jacó brigaram no seio materno, isso é verdade. Conhece-se a causa do conflito. Quanto a outros, dado que briguem também, tudo está em saber a causa do conflito, e não a sabendo, porque a Providência a esconde da notícia humana...”
No entanto, na Bíblia, narra-se que Rebeca, ao sentir que os filhos brigam em seu útero, pergunta a Deus qual seria a causa e Este responde: “Duas nações há no teu ventre.” Essa é a causa a que alude o conselheiro. Pode ser também a causa alegórica da luta constante de Pedro e Paulo. As duas nações seriam o próprio Brasil, dividido, na época, entre a Monarquia e a República e até hoje entre o progresso e o conservadorismo, entre a sofisticação e a miséria. A figura de Flora, indecisa entre os dois irmãos, já foi identificada como uma representação alegórica da própria nação brasileira “inexplicável”. Seu pai, Batista, é o típico político fisiológico que muda de partido como quem troca de camisa, sem ter qualquer convicção política ou ideológica.
No entanto, Machado de Assis nos fornece outra explicação, essa psicológica e não alegórica, para as constantes disputas fraternas. Crianças, ao travarem seu primeiro combate, recebem doces e beijos e um passeio de carro da mãe ao se reconciliarem. O narrador conclui o episódio com as seguintes constatações:

“De noite, na alcova, cada um deles concluiu para si que devia os obséquios daquela tarde, o doce, os beijos e o carro, à briga que tiveram, e que outra briga podia render tanto ou mais. Sem palavras, como um romance ao piano, resolveram ir à cara um do outro, na primeira ocasião. Isto que devia ser um laço armado à ternura da mãe, trouxe ao coração de ambos uma sensação particular, que não era só consolo e desforra do soco recebido naquele dia, mas também satisfação de um desejo íntimo, profundo, necessário.”

As implicações freudianas são claras: o Complexo de Édipo revelado na adoração da mãe faz com que se lancem um contra o outro. É bom lembrar que Machado de Assis escrevia antes mesmo do termo ser inventado. O mesmo Complexo pode explicar o fato de ambos se apaixonarem pela mesma mulher.

A COMPLEXIDADE DO FOCO NARRATIVO

As experimentações com o foco narrativo marcam a fase realista de Machado de Assis. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas apresenta um “defunto autor”. Esse aparente absurdo confere ao livro um realismo nunca antes visto em nossas letras. É exatamente por estar morto que o autor-narrador pode contar com um realismo cruel as perversidades, covardias e anti-heroísmo que compõem tanto a sua personalidade quanto as dos que o rodeiam. Em Dom Casmurro, é a escolha do foco narrativo, centrado no pouco confiável Bentinho, péssimo observador das sutilezas psicológicas, que cria a famosa dúvida acerca da traição de Capitu.
A forma de narrar não é menos inovadora ou complexa em Esaú e Jacó. O autor hipotético da narrativa é o conselheiro Aires. No entanto, o narrador se apresenta na terceira pessoa. É como observador que descreve o conselheiro, mas em muitos momentos deixa transparecer suas opiniões, utilizando da primeira pessoa.

“Não me peças a causa de tanto encolhimento no anúncio e na missa, e tanta publicidade na carruagem, lacaio e libré. Há contradições explicáveis. Um bom autor, que inventasse a sua história, ou prezasse a lógica aparente dos acontecimentos, levaria o casal Santos a pé ou em caleça de praça ou de aluguel; mas eu, amigo, eu sei como as coisas se passaram, e refiro-as tais quais. Quando muito, explico-as, com a condição de que tal costume não pegue. Explicações comem tempo e papel, demoram a ação e acabam por enfadar. O melhor é ler com atenção.”

A arrogância e a impaciência do narrador, que tanto lembram a postura de Brás Cubas, nas suas Memórias Póstumas, em muito se afastam da atitude sempre tão contida e conciliadora do conselheiro Aires. O narrador chega a descrever Aires de uma forma um tanto quanto desdenhosa, ao se referir a suas posições sempre dúbias:

“Aires não pensava nada, mas percebeu que os outros pensavam alguma coisa, e fez um gesto de dois sexos. Como insistissem, não escolheu nenhuma das duas opiniões, achou outra, média, que contentou a ambos os lados, coisa rara em opiniões médias. Sabes que o destino delas é serem desdenhadas. Mas este Aires, — José da Costa Marcondes Aires, — tinha que nas controvérsias uma opinião dúbia ou média pode trazer a oportunidade de uma pílula, e compunha as suas de tal jeito, que o enfermo, se não sarava, não morria, e é o mais que fazem pílulas.”

O conselheiro Aires é retratado como um homem que sempre concorda com todas as opiniões alheias, mesmo que sejam contraditórias, o que assume em conversa com Flora. Lembra, assim, outro conselheiro famoso da literatura luso-brasileira, o Acácio, do romance O Primo Basílio, de Eça de Queirós. Ambos se comportam de maneira artificial e estudada. Procuram passar a imagem da perfeita correção e querem agradar a todo custo, fazendo com que os seus interlocutores ouçam sempre o que querem e o que pensam.
Se Eça de Queirós descreve seu conselheiro Acácio como uma figura subserviente e empostada, o narrador de Esaú e Jacó esforça-se por desculpar a postura excessivamente diplomática de Aires. Logo após mostrar que o conselheiro tinha sempre “nas controvérsias uma opinião dúbia ou média”, o narrador de Esaú e Jacó, prevendo o desdém do leitor, pede que esse “não lhe queira mal por isso” e recomenda ainda que “não cuide que não era sincero, era-o”. E complementa: “tinha o coração disposto a aceitar tudo, não por inclinação à harmonia, senão por tédio à controvérsia.”

Em muitos momentos o narrador se identifica plenamente com o hipotético autor do livro:

“Esse Aires que aí aparece conserva ainda agora algumas das virtudes daquele tempo, e quase nenhum vício. Não atribuas tal estado a qualquer propósito. Nem creias que vai nisto um pouco de homenagem à modéstia da pessoa. Não, senhor, é verdade pura e natural efeito.”

Em outras passagens, o narrador comunga do espírito comedido de Aires: “Não exagero; também não quero mal a esta senhora.” Se levarmos em conta que Aires tivera uma “queda” por D. Natividade, a quem a frase se aplica, a correspondência entre narrador e pseudo-autor fica ainda mais evidente.
O crítico Ivan Teixeira, no belo livro Apresentação de Machado de Assis, resume bem a ambigüidade narrativa de Esaú e Jacó: “A invenção do pseudo-autor Aires (…) acabou gerando uma nova dimensão de foco narrativo: nem primeira nem terceira pessoa. mas uma coisa diferente, em que um autor imaginário trata-se a si mesmo como um ele, uma terceira pessoa, a cuja visão de mundo submete, no entanto, toda a outra matéria narrada no romance.”

O DIÁLOGO COM O LEITOR

Assim como em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o narrador de Esaú e Jacó trava um diálogo tenso e constante com o leitor da obra. Esse “leitor incluso” na própria narrativa é apresentado em geral como uma mulher – é bom lembrar que as mulheres formavam a maioria do público leitor de romances na época – que lê de modo impaciente e fútil. O capítulo XXVII - De uma reflexão intempestiva é todo dedicado a esse diálogo. O narrador flagra a reflexão de um leitora hipotética sobre o que escrevera no capítulo anterior: “Mas se duas velhas gravuras os levam a murro e sangue, contentar-se-ão eles com a sua esposa? Não quererão a mesma e única mulher?” Ao responder, o narrador imagina as restrições da leitora vulgar, impregnada do romantismo mais banal, à sua obra:

“O que a senhora deseja, amiga minha, é chegar já ao capítulo do amor ou dos amores, que é o seu interesse particular nos livros. Daí a habilidade da pergunta, como se dissesse: ‘Olhe que o senhor ainda nos não mostrou a dama ou damas que têm de ser amadas ou pleiteadas por estes dois jovens inimigos. Já estou cansada de saber que os rapazes não se dão ou se dão mal; é a segunda ou terceira vez que assisto às blandícias da mãe ou aos seus ralhos amigos. Vamos depressa ao amor, às duas, se não é uma só a pessoa...’”
Francamente, eu não gosto de gente que venha adivinhando e compondo um livro que está sendo escrito com método. A insistência da leitora em falar de uma só mulher chega a ser impertinente. Suponha que eles deveras gostem de uma só pessoa; não parecerá que eu conto o que a leitora me lembrou, quando a verdade é que eu apenas escrevo o que sucedeu e pode ser confirmado por dezenas de testemunhas? Não, senhora minha, não pus a pena na mão, à espreita do que me viessem sugerindo. Se quer compor o livro, aqui tem a pena, aqui tem o papel, aqui tem um admirador; mas, se quer ler somente, deixe-se estar quieta, vá de linha em linha; dou-lhe que boceje entre dois capítulos, mas espere o resto, tenha confiança no relator destas aventuras.”

A atitude do narrador não é só digressiva – afastando-se por uns instantes da linha narrativa básica – mas também metalingüística, pois através da interrupção da leitora, acaba por comentar seu método compositivo. Mas a “leitora” de fato antecipou um aspecto importante da narrativa que ainda estava por se desenrolar, o demonstra que não era tão fútil assim. O narrador irrita-se com a “reflexão intempestiva” da leitora, mas essa digressão é usada com maestria por Machado de Assis para já se desculpar pelo lance melodramático que irá se seguir: Pedro e Paulo ficarão realmente apaixonados pela mesma mulher. Basta lembrar o romance romântico Os Irmãos Corsos (1841), de Alexandre Dumas, para verificar que não se trata de entrecho muito original.

A PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA: OS BESTIALIZADOS

Em seu ensaio Os Bestializados - O Rio de Janeiro e a república que não foi, o historiador José Murilo de Carvalho remete a uma afirmação de Aristides Lobo (1838-1896), um dos chefes republicanos do levante de 15 de novembro de 1889, que lamentava o fato de a população do Rio de Janeiro ter assistido à Proclamação da República "bestializada", ou seja, sem nada entender, colocada à margem do movimento.
Em Esaú e Jacó, Machado de Assis revela uma fina percepção do fenômeno, na época de seu desenrolar. No capítulo LX – Manhã de 15, narra o passeio de Aires por uma cidade convulsa e atordoada, em que ninguém sabe ao certo o que estava acontecendo:

“Notou que a pouca gente que havia ali não estava sentada, como de costume, olhando à toa, lendo gazetas ou cochilando a vigília de uma noite sem cama. Estava de pé, falando entre si, e a outra que entrava ia pegando na conversação sem conhecer os interlocutores; assim lhe pareceu, ao menos. Ouviu umas palavras soltas, Deodoro, batalhões, campo, ministério, etc. (…) Quando Aires saiu do Passeio Público, suspeitava alguma coisa, e seguiu até o largo da Carioca. Poucas palavras e sumidas, gente parada, caras espantadas, vultos que arrepiavam caminho, mas nenhuma notícia clara nem completa. Na rua do Ouvidor, soube que os militares tinham feito uma revolução, ouviu descrições da marcha e das pessoas, e notícias desencontradas.”

Apesar de “suspeitar alguma coisa”, depois de ouvir relatos exagerados e desencontrados do cocheiro do tílburi que o levou para a casa e de seu criado José, Aires “não acreditou na mudança de regime (…). Também bestializado, como o resto da população, menospreza a situação:

“Reduziu tudo a um movimento que ia acabar com a simples mudança de pessoal.
— Temos gabinete novo, disse consigo.”
Almoçou tranqüilo, lendo Xenofonte: “Considerava eu um dia quantas repúblicas têm sido derribadas por cidadãos que desejam outra espécie de governo, e quantas monarquias e oligarquias são destruídas pela sublevação dos povos; e de quantos sobem ao poder, uns são depressa derribados, outros, se duram, são admirados por hábeis e felizes...”

Segue-se um dos momentos mais curiosos de toda a obra de Machado de Assis, a cena da “tabuleta”. O almoço de Aires é interrompido por Custódio, dono da confeitaria em frente à sua casa. Quer consultá-lo sobre a tabuleta nova que mandara pintar para seu estabelecimento, a “Confeitaria do Império”. É Custódio que informa Aires sobre a Proclamação da República. Teme que sua confeitaria seja apedrejada. Aires sugere mudar o nome para “Confeitaria da República”, mas o confeiteiro adverte para o fato de que a situação pode mudar. Aires sugere “Confeitaria do Governo”, mas Custódio lembra que todo governo tem oposição… E assim sucedem-se as objeções do confeiteiro, preocupado em agradar a todos, até que o conselheiro:

“Disse-lhe então que o melhor seria pagar a despesa feita e não pôr nada, a não ser que preferisse o seu próprio nome: “Confeitaria do Custódio”. Muita gente certamente lhe não conhecia a casa por outra designação. Um nome, o próprio nome do dono, não tinha significação política ou figuração histórica, ódio nem amor, nada que chamasse a atenção dos dois regimes, e conseguintemente que pusesse em perigo os seus pastéis de Santa Clara, menos ainda a vida do proprietário e dos empregados. Por que é que não adotava esse alvitre? Gastava alguma coisa com a troca de uma palavra por outra, Custódio em vez de Império, mas as revoluções trazem sempre despesas.”

Essa cena comprova o que Aires iria escrever no seu Memorial: “Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular.” Nos dois últimos romances de Machado de Assis essa preocupação com as relações entre o público e o privado aparecem ligadas a fatos históricos importantes do momento narrado.
No Memorial de Aires, cuja narrativa abrange os anos de 1888 e 1889, Machado de Assis, mestiço e discretamente abolicionista, registra com simpatia, sempre através das palavras atenuadas de Aires, o momento em que a Abolição da Escravatura é concretizada. Já em Esaú e Jacó, a emancipação dos escravos é o único tema capaz de unir as opiniões dos dois irmãos. Mesmo que por razões diferentes, em 1888, ambos a comemoram.

Origem: fredb.sites

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