Confissões - Santo Agostinho

É um livro autobiográfico, no qual relata a sua vida antes de se tornar cristão e sua conversão. Comentando sua própria obra, Agostinho diz que a palavra confissões, mais que confessar pecados, significa adorar a Deus. É, portanto, um hino de louvor.

astaugustine01boticcelliorigem: paxprofundis

por Rodolfo Domenico Pizzinga
Doutor em Filosofia, Universidade Gama Filho, 1988, RJ

Primeira Parte: Desatinos de outrora, conversão e batismo.

Livro I: A Infância


Os cinco primeiros capítulos da obra em análise constituem-se de uma verdadeira oração panegirical e de uma seqüência de apelos a Deus. Quando Santo Agostinho afirma que os que o buscam, encontrá-Lo-ão, sustenta essa convicção na fé que lhe foi comunicada e inspirada (e a todos os homens de fé) pela presença e pelo ministério de Jesus na Terra. Para Santo Agostinho, tudo o que existe tem que existir – e existe! – pela vontade de Deus, estando todas as coisas Nele contidas, e Ele presente em todas as manifestações da Natureza. O homem, como suprema concepção de Deus, O contém e Nele está contido. Entretanto, apesar de Deus estar em toda a parte (ubiqüidade), nenhuma coisa O contém totalmente. Talvez um símbolo para se meditar neste momento seja o de um círculo com um ponto em seu centro. O círculo representando Deus Infinito, na verdade in Corde; o ponto, o homem particulazinha da criação, segundo Santo Agostinho.

Sem pretender oferecer uma definição de Deus, no capítulo IV, o Santo sintetiza sua teodicéia, e, elaborando um verdadeiro conjunto de paradoxos, aspira com isso sustentar Sua oniparência e onipotência: ... tão oculto e tão presente... imutável e tudo mudando... sempre em ação e sempre em repouso... No entendimento dos tradutores das Confissões usado nesta pesquisa, J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina, em Santo Agostinho Deus surge-lhe como sumo valor e como ‘delícia’.

No capítulo 5 o Santo demonstrou um entendimento antropomórfico de Deus, conceito aprendido com os maniqueístas e que o torturará por muito tempo. Ao perguntar Que sou eu aos Vossos olhos para que me ordeneis que Vos ame, irando-Vos comigo, fica cabalmente demonstrada uma inclinação para antropomorfizar Deus. Tal conceito fica reforçado no mesmo parágrafo quando o Santo insiste que caso não ame Deus, Ele o punirá com tremendos castigos. Em livros posteriores Santo Agostinho confessará essa tendência e falará dessa grande dificuldade, qual seja, a de visualizar Deus (in)adequadamente.

A idéia de um Deus antropomórfico, com sentimentos humanos, parece ter sido difundida como decorrência de um equívoco propagado em cadeia e como princípio educacional religioso. No primeiro caso, o engano ocorreu em virtude das limitações sensoriais do próprio homem. Como Deus, em termos criacionistas estritamente teológicos, só pode ser sentido, compreendido, em decorrência de Sua infinitude, o homem para melhor adorá-Lo, tendeu para o grave erro da antropomorfização da divindade, limitando-a. Acresce-se a isso o fato de, por não admitir nada que O supere (com exceção do próprio Deus), quer em forma, quer em outra qualquer qualidade (geralmente humana), a forma concebida pelo homem para o Deus de sua compreensão é a dele próprio, ou seja, humana, com gostos e paixões humanas. No segundo caso, ao serem atribuídos a Deus sentimentos humanos, impõem-se ao homem limitações de conduta, o que se por certos aspectos circunscrevem-no a algumas regras e normas etológicas, por outros, impedem-no de evoluir em toda a sua plenitude. Como conceber um Deus irado e punindo as criaturas por ele criadas, e que, segundo os conceitos religiosos ocidentais, o foram para sua glória e satisfação? Como conceber um Deus vingativo pronto a infligir cruciante agonia a seres humanos, limitados por suas próprias naturezas, e por isso basicamente falíveis e suscetíveis a toda sorte de equívocos? Ora, se Deus criou o homem com todas essas mazelas, as próprias mazelas humanas são responsabilidade de Deus, posto que Ele não poderia criar umas coisas e deixar de criar outras. Honestamente, eu não consigo enxergar nada de glorioso e de satisfatório nisso.

Esses conceitos antigos (e outros piores) sustentados em épocas remotas, parecem, em alguma medida, ter-se diluído no tempo; mas tais idéias, lamentavelmente, ainda encontram seguidores nos tempos que correm. Só o próprio tempo fará o homem compreender, que a busca de deus fora jamais alcançará êxito. Fora é a ilusão, a dor, o descaminho. É a (in)compreensão do deus que odeia, que pune e que se vinga. Fora são os deuses coletivos, criados coletivamente pelas mais diversas coletividades para fins tanto individuais como coletivos. Dentro é a luz, a harmonia, a compreensão, a verdade (relativa). É o Deus impessoal. Nem bom nem mau;, nem justo nem injusto; nem isso nem aquilo. É o Deus que é. É, e nada mais. É como sempre foi e será. É. Só que precisa ser sentido, construído e realizado individualmente. Logo, não pode haver um único Deus, ainda que todos os Deuses sejam UM.

No capítulo 6, o Filósofo místico, humildemente, declarou sua ignorância a respeito de sua origem; considerou-se num dilema quanto à sua existência, pois não soube como denominá-la, se vida mortal ou morte vital, e passou a descrever os anos verdes de sua vida. O Santo permanentemente demonstrou uma insatisfação quanto ao seu desconhecimento a respeito de sua origem pretérita. E pergunta: E antes deste tempo, que era eu, minha doçura, meu Deus? Existi, porventura, em qualquer parte, ou era acaso alguém? Aqui se manifesta a grande dúvida de todo o ser consciente de suas limitações e de sua relação para com a inexistência do tempo e a ilimitabilidade do cosmos: quem é, de onde vem, para onde vai? Esta tríade de dúvidas acompanha, acompanhou e, provavelmente, acompanhará o homem enquanto homem. Talvez, apenas, por sua própria elevação, possa ele ter acesso à resposta que tanto o crucifica e que tão doridamente o fere em sua pequeneza mortal e falível. Entretanto, não serão tais dúvidas os cravos da evolução própria do homem? Não terá o homem que vencer e se superar para merecer o encontro com o Deus de sua compreensão? Sua própria permanência na malha da temporalidade não fará parte do aprendizado que conduz à intemporalidade? Não é o próprio Deus intemporal, e não será, teologicamente, Seu propósito permitir ao homem manifestar-se Nele e com Ele na intemporalidade, no Tav da humana experiência?

No capítulo 10, Santo Agostinho deu uma tocante demonstração de caridade, amor e fraternidade quando solicitou ao criador: Examinai, Senhor, estas fraquezas com um olhar de compaixão. Socorrei-nos, nós que já Vos invocamos, e socorrei também os que ainda Vos não invocam, a fim de que eles também Vos invoquem e sejam libertados. O Filósofo não quer Deus só para si, e, por isso, mui justamente, teve seu nome inscrito no cânon dos santos católicos. O ciúme e o egoísmo são, pois, coisas que não moram no coração daqueles que procuram padronizar sua vida segundo aquilo que acreditam ser a senda para a Luz. Santo Agostinho, ao escrever as Confissões, certamente já tinha expungido (se algum dia chegou a tê-las) essas imperfeições. A humildade em Santo Agostinho é uma constante presença, quer confessando seus erros, quer considerando-se o mais iníquo dos homens: Digo e confesso, diante de Vós, meu Deus, estas fraquezas... Que coisa houve mais corrupta aos vossos olhos do que eu?

Enfim, no Magnificat, o Santo, depois de confessar muitos dos seus pecadilhos da infância, declara-se ... sensível à amizade... (fugindo) à dor, à objeção, à ignorância... e, realista consigo próprio, depois de uma auto-análise e de uma reflexão profundas, mais uma vez, humilde, defere ao Criador a posse de todas as suas qualidades, afirmando: Tudo eram dons do meu Deus... Graças Vos sejam dadas pelos dons que me concedestes. Conservai-mos.

Livro II: Os Pecados da Adolescência

Neste livro, o Santo filósofo recorda suas torpezas passadas... as depravações carnais e os descaminhos de sua adolescência onde prevalecem, em muitas ocasiões, o prazer de praticar o mal. O prazer pelo prazer. Segundo os tradutores da obra, as lembranças e as reminiscências (não no sentido platônico) ora relatadas, passaram-se quando Santo Agostinho estudava em Madaura (atual Argélia). O relato traduz e exemplifica a crise de identidade pela qual passam, mais ou menos intensamente, todos os adolescentes. Os tradutores referidos, acertadamente, observam ser um período de ofuscamento da razão e dos valores espirituais, substituídos pelo despertar impetuoso dos instintos. É, por assim dizer, uma quadra em que se alternam sombras e trevas. É, para muitos, um período difícil de ser ultrapassado, pois os apelos do corpo, que sugam praticamente toda a energia vital disponível, enfraquecem a vontade e anestesiam a inteligência. O próprio Santo pergunta: Que coisa me deleitava senão amar e ser amado? E, mais adiante, confessa:

Arrojava-me, derramava-me, espalhava-me e fervia em minhas devassidões... Fervia... seguindo o ímpeto da minha torrente... e transgredia todos os mandamentos. Ignorante, precipitava-me tão cegamente que, entre os companheiros de minha idade, me envergonhava de ser menos infame do que eles.2

No capítulo 4, acredita-se que Santo Agostinho foi duro demais consigo dando ênfase ao roubo de umas poucas pêras. Apesar de declarar que as furtou pelo prazer de furtar, pois possuía aqueles frutos em maior quantidade e em melhor qualidade, este é um ato menor se comparado a outros anteriormente relatados. Fará, por exemplo, muito maior maldade o que retirar uma simples agulha de uma costureira que vive do seu trabalho. Pêras? Mas, aquele que é misticamente tocado pelos raios gloriosos da Luz do Altíssimo, como foi o entendimento de Santo Agostinho, torna-se severo consigo. E o que é banalidade para tantos passa a ser uma mácula na alma santificada. Observa-se tal comportamento ao longo das Confissões de Santo Agostinho.

Santo Agostinho acreditou que a causa do crime, do pecado, origina-se no desejo de serem alcançados alguns bens a que chamamos ínfimos, ou o medo de os perder, e diz que nem mesmo Catilina amou seus crimes, mas aquilo por cujo fim os cometia. É a ilusão do homem que, ao canalizar suas forças para o acúmulo de tesouros terrenos, confunde seus sentimentos e acaba por, muitas vezes, (in)voluntariamente, levando-o a praticar atos de vandalismo, de incúria, de injustiça e outros piores. Assim, valorizando o que não tem valor e, ao contrário, não dando valor ao que é puro e eterno, vai o homem, de crime em crime, caminhando pela noite de sua ignorância. E foi certamente para que todos que viessem a ler suas Confissões acordassem desse sonho inverossímil e impudente que o Bispo Hiponense as concebeu. Haverá maior humildade do que essa?

Ao discutir a alegria do mal, o Santo faz algumas advertências profundas que merecem ser reproduzidas: A ignorância e estultícia se encobrem sob o nome de simplicidade e de inocência. À preguiça parece apetecer apenas o descanso. A luxúria deseja apelidar-se saciedade e abundância. A prodigalidade cobre-se com a sombra da liberalidade. A avareza quer possuir muito. A inveja litiga acerca da ‘excelência’. A ira procura a vingança. O temor, enquanto vigia pela segurança das coisas que ama, detesta os acontecimentos insólitos e inesperados que lhes sejam adversos. A tristeza definha-se com a perda dos bens em que a cobiça se deleita.

Essas são algumas maneiras de pecar da alma no entender do filósofo. Obviamente há outras, e até piores. Sempre que o ser escolhe voluntária ou involuntariamente o caminho das trevas, o faz por uma necessidade de auto-afirmação, de independência, desejando superestimar e satisfazer os apelos do ego. Na transgressão dos preceitos religiosos o homem tenta imitar a atividade do Criador. O pecado é, por assim dizer, uma deturpação da via virtuosa, desarmonizando e incompatibilizando o transgressor com a Consciência Universal. O pecado assemelha-se à tentativa malograda de se pretender unir dois pólos semelhantes de um corpo ferromagnético. Uma e outra nada produzem de efetivo, de útil, de harmônico, e que sirva de base a algo de concreto. A repulsão dos pólos semelhantes de dois imãs exemplifica o mesmo estado em que se encontra a alma do pecador perante Deus. O homem para aproximar-se do Deus de seu Coração tem que primeiro se purificar de suas faltas e compreender que na vida disssoluta só há ilusões, dor, doença, tristeza. A ausência da Luz produz um vácuo no ser que nem com todas as lágrimas derramadas será preenchido. Fora de Deus in Corde, nada. Com Deus e em Deus in Corde, tudo! Por isso, é fundamental a quem aspira se manter ou participar da vida virtuosa, cuidar das companhias e dos lugares que freqüenta. Muitos atos sórdidos não seriam praticados pelos homens se não tivessem sido catalisados pela sociedade, pelos falsos amigos, pelos programas de televisão de baixo nível moral, pelos filmes abjetos, pela literatura imunda que atualmente circula livremente, pelo exemplo degradante que políticos, empresários, autoridades e Governo dão ao povo; enfim, muita desgraça e infâmia seria evitada se o homem se voltasse para seu interior, e lá buscasse encontrar o mundo de Luz – o céu – de que falou Jesus, o Cristo. Santo Agostinho reconhece também que se estivesse absolutamente só não teria cometido o furto das pêras anteriormente aludido.

O que se pode concluir dos dois primeiros livros das Confissões é o delineamento do auto-retrato de Santo Agostinho narrado com extrema beleza e emoção, onde se observa, como ele próprio relata, um dos mais renhidos episódios de luta de conversão. É considerada uma obra-prima do Cristianismo, verdadeira fonte de inspiração para todos que a lerem, sejam ou não cristãos.

Livro III: Os Estudos

Neste livro, o Bispo de Hipona descreve sua vida em Cartago e sua passagem pelo Maniqueísmo. Confessa suas desvergonhas e delas se envergonha. Fala de seus amores, de sua vida dissoluta, luxuriosa, de seu gosto pelos espetáculos teatrais e faz uma análise do gosto mórbido do homem em assistir a cenas que, geralmente não admite suportá-las na vida real. Tal identificação do homem com essas coisas dá-se pelo estado inflamatório e doentio de sua alma. A alma sã jamais é atraída para esse tipo de espetáculo. Por isso, é incomensuravelmente louvável e bela a luta do homem Agostinho, contra toda a torpeza, imundície e podridão em que estava mergulhado. Foi, depreende-se, uma luta encarniçada, cujo prêmio pela vitória foi a Illuminação de sua alma. O anjo venceu o lobo interior.

No capítulo 4, Santo Agostinho relata que ao estudar eloqüência, entrou em contato com o livro Hortensius, de Cícero, que contém uma exortação ao estudo da Filosofia, sob a forma de diálogos. Chegaram aos nossos dias apenas fragmentos dessa obra. Tal livro causou profunda impressão no jovem Agostinho que à época contava dezenove anos. Eis seu relato:

Ele [Hortensius] mudou o alvo das minhas afeições, e encaminhou para Vós, Senhor, as minhas preces, transformando as minhas aspirações e desejos. Imediatamente se tornaram vis, a meus olhos, as vãs esperanças. Já ambicionava, com incrível ardor do Coração, a Sabedoria imortal. Principiava a levantar-me para voltar para Vós.3

Do Hortensius, decidiu Santo Agostinho estudar a Sagrada Escritura, e acabou por considerar seu estilo indigno, [se comparado] à elegância ciceroniana. E é seduzido pela doutrina maniqueísta, que virá também a lamentar: Ai! Ai de mim! Acreditei nos erros dos maniqueístas.

No final da análise do Livro II afirmou-se: Fora de Deus in Corde, nada. Com Deus e em Deus in Corde, tudo! No capítulo 7 do Livro III, objeto da presente análise, Santo Agostinho escreveu: O mal é apenas a privação do bem, privação cujo último termo é o nada. Tanto um como outro pensamento refletem o mesmo princípio, que ainda, por outras palavras, sustenta que as trevas nada mais são do que a ausência da Luz, ainda que tenham existência real e produzam o mal. Evidentemente, tal princípio, profundamente místico, filosófico e até esotérico, não teria sido compreendido por Agostinho maniqueísta que chegou a confessar: Se algum esfomeado, que não fosse maniqueísta, me pedisse de comer, o dar-lhe algumas migalhas quase me parecia merecer a pena capital. Portanto, Santo Agostinho tornou-se mais um exemplo de que, longe da Luz todos os atos e todos os conceitos são obscuros, deformados e parciais. E tornou-se um exemplo também, de que, quando há sinceridade de propósitos, a Luz brota e enche o Coração do buscador. O carro, no entanto, não passa jamais à frente da parelha de bois. Há tempo para tudo; e o tempo era ainda de fé em Maniqueu.

Livro IV – O Professor

O Bispo Hiponense continua sua confissão. Foram nove anos de ilusões, de erros e de escuridão. Nessa época era ele professor de retórica, e também por essa época vivia em companhia de uma mulher que não havia sido reconhecida em matrimônio, mas como ele próprio afirmou, era-lhe fiel e só a ela dedicava seu amor.

Apesar de ainda palmilhar um caminho tortuoso, Santo Agostinho, pelas suas declarações, buscou sempre a estrada da sabedoria e da perfeição. Nisso assemelhou-se a Confúcio, que ensinou: Um homem perfeito põe em primeiro lugar o que é mais difícil, isto é, a vitória sobre suas paixões.

Também no episódio do feiticeiro que mandou lhe perguntar que estipêndio lhe pagava para fazê-lo vencedor (a expensas do sacrifício de animais) do concurso de poesia dramática e veementemente repelida pelo Santo, observa-se uma profunda repulsa pela oferta, pois sabia que: as riquezas e as honrarias obtidas por meios escusos parecem... ser como nuvens que flutuam no ar.

Sua alma, contudo, continuava dilacerada e não havia sossego e paz em seu coração. Sobre essa fase ele revela: Não descansava nos bosques amenos, nem nos jogos e cânticos, nem em lugares suavemente perfumados, nem em banquetes faustosos, nem no prazer da alcova e do leito, nem finalmente nos livros e versos.

O homem, nessas circunstâncias, sente-se desamparado e só. Nada o conforta; nada o alegra. É um sentimento de vazio que parece não ter fim. Tudo são trevas. É noite. É a noite mais longa da humana existência. É a Noite Mística da Alma. Santo Agostinho não se refere especificamente à Noite Negra, mas já a esta altura das suas Confissões são vislumbradas e percebidas indicações de que o Santo relatava (antonianamente) seu conticinium, eis que tudo o horrorizava, até a própria luz.

Neste livro, o Hiponense recorda o tratado De Pulchro et Apto (Do Belo e do Conveniente) escrito por volta de 380 e hoje perdido. No seu entendimento, o homem só consegue amar o que é belo. Beleza e amor estão um para outro, assim como o perfume está para a flor. Em uma palavra, o belo foi por ele definido como o que agrada por si mesmo; e o conveniente, o que agrada pela sua acomodação a alguma coisa. O tratado em referência foi dedicado a Hiério, nascido na Síria, mas admirável orador na língua latina.

Finalmente, neste Livro, no Capítulo 16, recorda as Dez Categorias de Aristóteles, Præedicamenta para os latinos de então, por representarem os predicados que se atribuem ou podem atribuir-se a um sujeito, e dá um exemplo para cada uma delas: Substância (o homem); Qualidade (qual é a sua figura); Relação (parentesco de quem é irmão); Quantidade ou Estatura (quantos pés mede); Ação (se faz alguma coisa); Paixão (se padece); Lugar (onde se acha); Tempo (quando nasceu); Estado (se está de pé ou sentado); e Hábito (se está calçado ou armado). Acabou por concluir que a leitura e o entendimento de as Dez Categorias não lhe serviram de nada, pois mesmo a perfeita compreensão dessa obra e de outras tantas que estudou não o impediu de errar na Ciência da Religião com sacrílegas e deformantes torpezas. O que Santo Agostinho acaba por inferir, é que o amor a Deus é fundamental e o caminho do retorno não cobra diplomas universitários ou habilidades especiais. A cultura de cada um e a especialização que possa ter só servem se utilizadas dinamicamente em prol do bem e da sociedade. O homem só encontrará paz, luz e verdade (relativa) quando e se voltar sua face para o Deus de seu Coração. A reintegração só pode ser operada nessa base, e tendo por premissa, como disse o Santo, a caridade e a fé.

Livro V: Em Roma e em Milão

Santo Agostinho inicia este livro oferecendo suas Confissões a Deus. Textualmente escreveu: Recebei o sacrifício das ‘Confissões'. Entretanto, não há sacrifício mais purificador e gratificante para o homem consciente do que se confessar a si mesmo e ao Deus de sua compreensão, pois é nesse instante que, tomado de total lucidez, ele reconhece sua fragilidade, suas faltas e sua podridão. Confessar-se é reconhecer-se menor, humilde, em débito. Confessar-se é desejar voltar. É arrepender-se sinceramente. É estabelecer o firme propósito de não reincidir nas faltas cometidas no passado. Confessar-se é desejar voltar para Deus, viver em Deus e para o Deus de seu Coração. Confessar-se é estar com Deus no Coração. Confessar-se é reconhecer-se um pequeno grão de areia. É um sacrifício que lava a alma nas lágrimas do arrependimento. Confessar-se é renascer em Deus criado alquimicamente no Sanctum Cordis.

No capítulo 3, o Santo volta-se contra o Maniqueísmo e afirma: ... dizem-se sábios [os maniqueístas] e atribuem a si próprios o que é Vosso. Por isso desejam, com tão perversa cegueira, atribuir-Vos as suas mentiras, a Vós, que sois a Verdade, e mudar a ‘glória de um Deus incorrupto na imagem e semelhança do homem corruptível, na das aves, quadrúpedes e serpentes’. Convertem a vossa verdade em mentira... São as primeiras desilusões do Santo com a seita de Maniqueu. É o início da volta.

Observa que Maniqueu foi surpreendido ao falar erroneamente sobre o céu, os astros e os movimentos do Sol e da Lua, fato que isoladamente não é importante, mas que passa a ser gravíssimo quando atribuído a Deus, pois tentou fazer crer que o Espírito... habitava pessoalmente dentro dele, com toda a plenitude do seu poder. Tal fato demonstra que quando o homem se deixa alcançar pela vaidade, esta, embalada pela ignorância, projeta o homem no ridículo, comprometendo-o perante a sociedade. Se, por um lado, isso é um mal, no caso do Hiponense foi um bem, pois, de desilusão em desilusão, fê-lo crescer, meditar e reavaliar seu relacionamento com o Maniqueísmo. Quem ganhou foi a Humanidade ao herdar o pensamento agostiniano, pérola da filosofia medieval. Há males que vêm para bem... Talvez o ápice da desilusão de Santo Agostinho com o Maniqueísmo tenha se dado a partir de seu encontro com Fausto, um dos próceres da seita, que se demonstrou totalmente incapaz de elucidá-lo em suas dúvidas e problemas.

Assim, desiludido e triste, parte para Roma, em busca de sossego para estudar e lecionar retórica. Em Cartago isso não era possível devido à completa falta de educação e sem-cerimônia da juventude da época. A capital do império romano também oferecia maiores possibilidades de lucro e conferia maior dignidade, razões que também moviam o espírito do Hiponense.

Na análise do Livro I abordou-se rapidamente a questão do conceito antropomórfico de Deus. Essa involuntária dificuldade agasalhada por Santo Agostinho aparece clara no segundo trecho do capítulo:

Parecia-me muito vergonhoso acreditar que tínheis uma figura de carne humana e que éreis contornados pelos traços corporais dos nossos membros. Porém, o principal e quase único motivo do meu erro inevitável era quando desejava pensar no meu Deus, não poder formar uma idéia Dele se não Lhe atribuísse um corpo, visto parecer-me impossível que houvesse alguma coisa que não fosse material.4

Essa aflição continua nos dias de hoje e atormenta a mente dos mais diversos e sinceros buscadores da Luz Divina. A visualização de um Deus criado à imagem e semelhança do próprio homem parece facilitar a oração e o contato com o Deus infinito que cada homem deseja e pretende, à sua maneira, encontrar e alcançar. E tal qual Santo Agostinho, passam muitos um bom pedaço da existência, cativo[s] e sufocado[s] por imagens materiais.

De Roma segue para Milão. Corria o ano 384. Em Milão conhece Santo Ambrósio e depois de ouvi-lo inúmeras vezes pregar ao povo, abandona o Maniqueísmo e faz-se catecúmeno na Igreja Católica.

Livro VI: Entre Amigos

Logo no primeiro parágrafo, o Santo revela uma aguçada sensibilidade quando declara que ao caminhar por trevas e resvaladouros [procurava Deus] fora de mim, sem descobrir o Deus do meu Coração. (Grifo meu.) Essa talvez seja a maior verdade e a mais profunda demonstração de humildade que um místico pode oferecer. Santo Agostinho a ofereceu. Quando o postulante alcança a compreensão do verdadeiro significado da expressão Deus do meu coração é certo que vive em humildade, tolerância e fraternidade.

Cada homem, em cada parte do mundo – independente de raça, credo, cor, posição sócio-econômica etc. – dentro de suas limitações de cultura, lugar de nascimento e outras variáveis, visualiza Deus de uma forma particular e peculiar. A padronização e uniformização são impossíveis. É como se desejar que uma criança tenha a compreensão da política, das relações norte-sul e leste-oeste, dos problemas sociais de um Estado, igual a de um adulto. É como, enfim, desejar que uma criança compreenda Deus como um adulto, ainda que seja perfeitamente possível que uma criança compreenda Deus de uma maneira mais concertada do que um adulto. A compreensão e a realização de Deus evolui no homem. O conceito de Deus não é estático; ao contrário, é dinâmico. Da mesma forma, a compreensão de Deus de 2000 anos atrás não era a mesma de hoje. O que não mudou foi a antropomorfização de Deus. Seja como for, a busca não pode ser dirigida ao Deus do amigo querido, nem da religião dominante. Ela tem que se orientar para o Deus interior que habita no Céu individual de cada homem. E, quando cada um tiver construído e realizado seu Deus interior, não haverá mais um Deus em cada Coração, pois deixará de existir multiplicidade na compreensão da Unidade. Terá, então, sido concluída a Obra, ainda que não possa existir jamais uma conclusão definitiva para nada, pois a Espiral é ilimitada, e, assim sendo, não tem fim (como nunca teve começo). Contudo, nessa etapa, os homens estarão todos integrados e haverá um único Deus e um só Coração. Esta é, em certo sentido, uma possível explicação para o conceito de que somos todos um.

Acredita-se que um outro fato singular na vida de Santo Agostinho tenha sido sua permanente confissão de dúvida, em tudo à maneira dos Acadêmicos, e que ele, no entender deste estudante, erradamente, em função disso, julgava impossível encontrar o caminho da vida. Foi exatamente a dúvida que o afastou da vida dissoluta. Foi exatamente a dúvida que o afastou do Maniqueísmo. Foi pela dúvida torturante que se santificou e consagrou sua vida à busca da Verdade (relativa) e que acabou por encontrá-la em seu Coração. Dúvida é inconformismo. Inconformismo é busca. Busca é pesquisa, é luta, é consagração a um ideal. E, por tudo isso, pela perseverança, é que as portas vão se abrindo e a Luz, brilhando mais intensamente no Coração do aspirante. Em Santo Agostinho ela brilhou completamente, e ele foi contemplado, pelo esforço e pelo mérito, com a plena Iluminação.

A essa altura das Confissões, o Santo começa a demonstrar que o conceito antropomórfico de Deus, mantido até então, começa a se desvanecer e a dar lugar a um entendimento menos material e mais espiritual, apesar de ainda não compreender exatamente como é que o homem poderia ser imagem [de Deus]. Ele mesmo declarou: Rejubilava por não existir entre a Sua doutrina tão sã o erro de Vos circunscrever, ó Criador de tudo, sob a figura dos membros humanos, a um espaço que, apesar de sumo e amplo, seria, contudo, limitado.

O véu começava a ser removido, e o Santo principiava a adentrar nos mistérios pela leitura dos antigos escritos da Lei e dos Profetas.

Uma observação profundamente interessante é feita no capítulo 11: Adiava de dia para dia o viver em Vós. Desejando a vida feliz, temia buscá-la na sua morada. Essa parece ser uma atitude muito comum e corriqueira, eis que as pessoas, geralmente, não têm a força suficiente para se afastar da ilusão que os sentidos proporcionam. São as ilusões dos alimentos apetitosos; são as ilusões dos espetáculos anestesiantes da mente e indutores de sentimentos vis; são as ilusões do sexo desregrado e obsceno que oferecem prazer apenas no instante orgástico; são as ilusões do poder que conduzem às mais variadas formas de autoritarismo; são as ilusões impostas pela sociedade, obrigando ao consumo estéril e desnecessário; são as ilusões dos reality shows, do tipo Big Brother Brasil (que já está na sétima edição!) e congenéricos; enfim, são as ilusões de toda sorte que encontram guarida na mente fraca daqueles que, ainda embriagados no e pelo dia-a-dia da existência, não encontram força para vencer suas paixões, suas fraquezas e suas misérias. Santo Agostinho confessou algumas dessas ilusões, mas venceu e se tornou modelo de perseverança e força interior, pois, a exemplo de Sócrates (que foi obrigado pelos tiranos da época a beber cicuta), acabou por se abster de toda a ação ímpia, injusta e reprovável, não só em presença dos homens como também na sociedade.

Livro VII: A Caminho de Deus

O Santo de Hipona inicia este livro confessando, novamente, sua dificuldade em conceber e entender a manifestação do Deus Infindo de sua humana compreensão. Apesar de afirmar sempre ter fugido à concepção de Deus sob a forma de um corpo humano, necessitava, contudo, de ... imaginá-[Lo] como sendo alguma coisa corpórea. Na verdade, Santo Agostinho não conseguia imaginar Deus de outro modo. Desejava livrar-se do conceito antropomórfico, mas não conseguia. Provavelmente, o Santo, naquela ocasião, ainda não tivesse se apercebido e também vivenciado, que Deus – o Deus de cada Coração a que ele mesmo se referiu – não está fora, mas dentro de cada um. É, portanto, antes de qualquer especulação, um estado próprio que cada consciência individual alcança, experimenta e registra. A permanência nesse estado depende de cada um, da sinceridade e do mérito de cada ser-no-mundo. A senda é estreita, tortuosa e longa. O prêmio, a conquista definitiva, é a reintegração, ainda que a própria idéia de prêmio seja hipoteticamente errônea e inverossímil. Assim, apesar de ter se referido ao Deus do seu Coração, faltava-lhe perceber, talvez, que cada criatura concebe um Deus de acordo com sua cultura e sua própria consciência de Deus, ou seja: de acordo com seu grau de compreensão de toda essa especulação metafísica. A própria existência do Deus de todos os Corações, de todo o cosmos, não era, não é e não será afetada por isso. Todos, porém, no devir da existência estão caminhando para a regeneração e para a reintegração com e em seus Deuses. Certamente, Santo Agostinho acabou por compreender isso.

Outro aspecto interessantíssimo desta obra é o que aborda a fraqueza da Humanidade – na pessoa do Santo – e a consciência em transigir com o opróbrio. Nesse sentido, ouça-se o Hiponense: Quanto ao que fazia contra a vontade, notava que isso era antes padecer [o mal] do que praticá-lo. Quantas e quantas vezes o homem está a praticar determinada ação sabendo que é má e abjeta, como categoria meramente humana, se continua a praticá-la? O saber que é abjeto não é, como diz o Santo, uma espécie de punição? Ou será, talvez, a prisão do homem nos tentáculos de sua própria e negra ignorância? O que será realmente? Ora, precisamos compreender que todas as categorias vinculadas ao bem e ao mal (e todas as outras) são construções do intelecto que têm a finalidade de explicar o inexplicável por meio de explicações racionais e objetivas, e de bussolar o ente (que busca o Bem e a Beleza) em direção àquilo que ele entende como o Bem e a Beleza universais.

Quando há a prática do erro concomitantemente com a consciência plena do erro e com um sentimento de dor, desonra, vergonha e verdadeiro desespero pelo ato cometido, associado, ainda, à vontade de continuar a cometê-lo, num verdadeiro tumulto da alma... Então é noite! Noite Negra, Noite Tenebrosa, Noite Obscura, Noite Caliginosa. Tudo é treva. A Luz não brilha. Ultrapassar a Noite é preciso. Vencê-la é imperativo. A consciência desse episódio na experiência da humana existência facilitará a batalha interior que cada um, oportunamente, terá que empreender. Terá o homem também que compreender que o mal só existe em seus atos, em sua ignorância a respeito das leis universais como práticas equivocadas. O mal não tem existência na atualidade cósmica; é, antes, no palco das humanas realidades, a ausência do bem, ou a ausência da manifestação ou da percepção da harmonia existente e presente em todo Universo. O verdadeiro Prazer, por assim dizer, só é alcançado no Orgasmo Cósmico com a alma em estado de androginia. O resto é ilusão. E é por causa dessa ilusão (já comentada anteriormente) que o homem, afastado de seu Deus interior, quer encontrá-Lo lá e acolá, quando Ele está tão próximo. Mas, tropeçando aqui e ali, vai o homem crescendo e se tornando iluminado. Assim, tropicando ali e aqui, o Hiponense foi se aproximando do seu Deus. E a Illuminação vai propiciando pérolas de conhecimento que só uma vida santificada pode colher e oferecer. Eis alguns fragmentos dessa Illuminação: Com a vista da minha alma, vi, acima dos meus olhos interiores e acima do meu espírito, a Luz Imutável... Quem conhece a Verdade conhece a Luz Imutável, e quem a conhece, conhece a Eternidade... Em absoluto, o mal não existe... A criação, em conjunto, vale mais que os elementos superiores tomados isoladamente... Não há saúde naqueles a quem desagrada alguma parte da Vossa criação... Descobri a imutável e verdadeira Eternidade por cima da minha inteligência sujeita a mudança... Experimentei a certeza de que existíeis e éreis infinito, sem contudo Vos estenderdes pelos espaços finitos e infinitos. Sabia que éreis verdadeiramente Aquele que sempre permanece o mesmo, sem Vos transformardes em outro, quer parcialmente e com algum movimento, quer de qualquer outro modo.

Reconhece-se nas conclusões acima alcançadas por Santo Agostinho a Luz brotando em um homem que percorreu e experimentou tudo o que o mundo podia oferecer. Roubo (ainda que meninil), luxúria, sedução da astrologia, ambição de honras e riquezas, vaidade, soberba, futilidade de glória, paixão pelos jogos, orgulho das vitórias etc. Que força interior deve ter possuído o homem Agostinho para ter conseguido vencer todas as suas fraquezas! Quanto desprendimento ao confessar seus desregramentos à Humanidade para, servindo de exemplo, estimular e impulsionar aqueles que estão afastados de Deus, que O busquem, ainda que lentamente, ainda que tenuemente! Que suma beleza sua vitória sobre os apelos inferiores do corpo e sua posterior Illuminação!

O que se pode depreender até o presente, é que as Confissões de Santo Agostinho acabem por retratar um pouco (ou muito) de cada um de quem as lê. E, se a hora chegou, pela leitura de cada um dos livros que compõem a obra, um certo tipo de conversão de operará, não necessariamente a uma religião específica, mas representará, de certa maneira, para o ser em aflição, o início de um retorno a uma vida mais pura, mais reta, e, conseqüentemente, mais saudável, mais harmônica e mais espiritualizada. A volta, geralmente, não é abrupta ou imediata; o maior exemplo foi o próprio Hiponense.

Livro VIII: A Conversão

A conversão de Santo Agostinho não foi, então, abrupta. Ao contrário, foi lenta, dolorida e arrastou consigo uma chuva torrencial de lágrimas.

Parece ser no choro incontido, oriundo da incontida tortura das lembranças das faltas praticadas, das dúvidas, dos remorsos, da vergonha de ter sido o que foi e da vergonha de não ainda ser o que deveria ter sido, que o ser em confissão e já próximo da Illuminação encontra algum alívio e algum conforto. O Santo passou por tudo isso intensamente. Preso ainda às suas iniqüidades pretéritas, onde se sentia ainda coagido a entregar-se à vida conjugal, desesperado, retira-se para debaixo de uma figueira e clama: Amanhã. Amanhã? Por que não há de ser agora? Porque o termo das minhas torpezas não há de vir já, nesta hora? O apelo de Santo Agostinho era certamente em função de todos os erros praticados. Contudo, parece que o que mais o atormentou, pois talvez tenha sido o que mais o teria dominado, foi a luxúria. Em várias passagens das Confissões a ela se reporta confessando estar, ainda, ferreamente acorrentado aos prazeres da carne. É o que o Santo entendeu como a luta das vontades.5 Abaixo se transcrevem alguns excertos dessa luta empreendida por ele:

Ora, a luxúria provém da vontade perversa; enquanto se serve a luxúria, contrai-se o hábito; e se não resiste a um hábito, origina-se uma necessidade.

A vontade... de Vos honrar... ainda não se achava apta para superar a outra vontade, fortificada pela concupiscência.
Assim, duas vontades, uma concupiscente... outra espiritual, batalhavam mutuamente em mim. Discordando, dilaceravam-me a alma.

Essa luta interior, que se travou em Santo Agostinho, ficou definitivamente exemplificada na frase: Dai-me a castidade e a continência; mas não ma deis já. Era o medo de se santificar 'antes da hora' e de se curar da concupiscência sem antes tê-la aproveitado em toda a sua ignomínia. Era o lobo vencendo o anjo. A vontade de servir a Deus era ainda tíbia. A luxúria vencia ainda a castidade. Caos interior.

E a luta espiritual que Santo Agostinho travava nos seus trinta e um anos acabou por se tornar violentíssima. A superação dos desejos inferiores e os apelos da vida carnal estavam a ser vencidos, expelidos e completamente expurgados. O lobo estava sendo dominado e o anjo principiava a se fazer e ouvir. A meia-noite já havia passado e a aurora lançava os primeiros raios de sol. E o sol interior começava a brilhar no íntimo de Santo Agostinho. O Deus do seu Coração principiava a se rejubilar. O filho, que já havia tomado o caminho de casa, acelerava o passo e começava a correr. O tempo, para o Santo, urgia, e o que era trevas, agora já se iluminava. A batalha final para romper os últimos elos que o atavam à vida mundana estava por se manifestar. O Santo dizia interiormente: Vai ser agora, agora mesmo. Faltava muito pouco e o passo final parecia ser o maior. Hesitava o Santo em morrer na morte ou viver na vida. Suas antigas amigas de farra murmuram tentando-o: Então despede-nos... Nunca mais estaremos contigo... Nunca mais será lícito fazer isto e aquilo. Por outro lado a castidade argumentava: Sê surdo às tentações imundas dos teus membros na Terra, para os mortificares. Narram-te deleites, mas estes não são segundo a lei do Senhor teu Deus. Estava, enfim, como descrito anteriormente, o Santo sob a sombra de uma figueira, no auge da dor e do desespero, travando a derradeira luta com o seu eu inferior, quando ouviu uma voz vinda da casa próxima, cantando e repetindo: Toma e lê; toma e lê. Não identificava se era de menina ou de menino, mas intuiu que deveria abrir o códice, e ler o primeiro capítulo que encontrasse.

Assim fez o Santo imediatamente. Tomou as Epístolas de São Paulo e leu em silêncio o primeiro capítulo que aleatoriamente encontrou: Não caminheis em glutonarias e embriaguez, nem em desonestidades e dissoluções, nem em contendas e rixas; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis a satisfação da carne com seus apetites. Foi o suficiente! Era o empurrão que faltava. E Santo Agostinho, que um momento atrás se encontrava fraco em sua fé, agora tinha se tornado forte para a eternidade. O desassossego terminara e já não procurava esposa, nem esperança alguma do século... A conversão definitiva tinha sido operada. Glória a Deus em todos os recônditos lugares do Universo, pois mais um filho houvera por bem se regenerar e acabara por se reintegrar ao rebanho dos filhos da Luz. O Sol interior brilhou. As trevas foram dissipadas.

Livro IX: O Batismo

A primeira conseqüência da conversão do Santo africano foi o pedido de demissão da cátedra em Milão. Acreditava que já não poderia mais se sentar uma hora na cadeira da mentira. Ao se retirar para Cassicíaco, hoje Cassago de Brianza, encravado nos montes milaneses, meditou muito, e como bom e dedicado buscador chegou a mais algumas lúcidas conclusões. Escolheu-se uma passagem da obra, como símbolo de sua compreensão nova, que estava, cada vez mais, a iluminá-lo na nova vida: Nos fantasmas que eu tivera como verdade, só havia vaidade e mentira.

Até quando viverão os homens em mentira e em vanglória? Até quando, mortos, pensarão que vivem?

Chegou, então, a época do filho de Santa Mônica inscrever-se entre os catecúmenos. 387 era o ano; o mês, março. E o que mais preocupava o Hiponense – sua vida desregrada e libidinosa – desapareceu com o batismo. Ao ser simbolicamente abluído por meio da água, seu ser foi purificado em todos os sentidos, segundo os ritos da Igreja Católica, e, a partir desse instante, abandonou... a preocupação da vida passada. Nascera, assim, definitivamente, em Deus; no Deus de sua humana compreensão. Bendita seja tal compreensão, que levou Santo Agostinho – como leva todo aspirante sincero – ao supremo encontro com o Deus interno que habita no âmago de cada criatura, em todos os quadrantes do Universo. Sua idade era 33 anos!

Deve ser ressaltado também, agora já ao final da primeira parte que, conforme o próprio Santo admite, por causa de sua pressa muitas coisas [foram passadas] em silêncio. Ou seja, apesar de a obra Confissões ser extensa e profunda, muitos aspectos da vida do autor perpassaram rapidamente, enquanto outros não puderam ser considerados.

Para melhor servir a causa de Deus, e da Igreja que abraçara integralmente, o Santo volta à África com sua mãe e alguns amigos. Mas, na foz do Tibre, em Óstia, falece Santa Mônica a mãe, a esposa modelar, a cristã de corpo inteiro. Como seu bendito filho a enalteceu! Como a recordou! Como a amou! Em Óstia também ocorreu um êxtase. Mãe e filho, juntos, para além da ilusão dos sentidos e onde o tempo inexiste, atingiram a sabedoria momentaneamente em um ímpeto completo dos seus corações. Alcançaram, segundo descrição do próprio Santo (110) o é, já que o ter sido e o haver de ser não são próprios do Ser eterno. Tudo isso antes do falecimento de Mônica.

De certa maneira, explica-se tal fenômeno que filho e mãe vivenciaram juntos. Mônica havia perdido o prazer e gosto pela vida. O mundo já não a atraía. Seu desejo estava satisfeito: ver Agostinho católico antes de morrer. Convertido o Santo, qual a vantagem de permanecer viva, pensava Mônica. O êxtase, assim, explica-se, quer sob o aspecto psicológico, quer sob o aspecto místico. Foi, por assim dizer, uma despedida. Mãe e filho, como que conscientes, uma do dever cumprido, outro de sua nova e definitiva missão, comungaram de um estado superior de consciência só alcançado em condições especiais por aqueles que consagraram sua vida e toda a sua humana existência à santificação de suas almas. A morte, assim, passa a ser a suprema e última experiência, a diplomação de toda uma vida dedicada à libertação dos desejos do mundo inferior, para que possa ocorrer o místico Illuminar-se. Nesse sentido, a morte então não existe. Mônica, talvez intuitivamente, compreendesse isso. Talvez pressentisse que morrer é nascer no seio do Deus de seu Coração. Talvez, então, por isso, ansiasse por esse encontro. Pouco tempo depois o desenlace ocorreria. Posteriormente haveria de receber da Igreja o título de Santa: Santa Mônica.

Acalmado o Coração pela morte prematura de Mônica (que faleceu aos cinqüenta e seis anos), Santo Agostinho ora por sua mãe, a mãe que tanto o amou e a quem ele tanto venerou.

Segunda Parte: Confissão da Vida como Bispo de Hipona e Louvor a Deus

Livro X: O Encontro de Deus


Na segunda parte das Confissões, o Santo Hiponense não mais se reporta aos desatinos de outrora; refere-se à vida que levava presentemente ao elaborar a obra. Neste livro, o Santo analisa as funções da memória ao mesmo tempo em que discute as seduções da gula, da boa música, dos bons perfumes e das belezas naturais. Em uma das notas, o tradutor das Confissões explica, em função do primeiro apelo desta segunda parte – Fazei que eu Vos conheça como de Vós sou conhecido – ser esta a filosofia de Santo Agostinho: Que me conheça a mim, que Te conheça a Ti, Deus, expressão retirada de Solilóquios, Livro II, capítulo 1.

Na medida em que o homem se conhece mais acuradamente a si mesmo – reconhecendo suas fraquezas, suas misérias, suas covardias, suas transigências – na medida em que procede a uma sincera auto-análise, acaba por penetrar no santuário de sua alma, e, ali, passa a compreender, a sentir e a participar de uma relação mais íntima com o Deus de sua compreensão. Quer dizer, o autoconhecimento aproxima-o da Verdade sempiterna.

O Santo afirma neste livro que seus males passados estão perdoados, eis que, por suas confissões, Deus esqueceu seus desregramentos de antanho. Por isso, diz ter a alma transformada com o ... sacramento [de Deus]. Nesta altura das Confissões, o Bispo de Hipona revela a finalidade que as Confissões passa agora a ter: O fruto das minhas ‘Confissões’ é ver não o que fui, mas o que sou. ... Revelarei, pois, àqueles a quem me mandais servir, não o que fui, mas o que já sou e o que ainda sou. Quer, humildemente, servir de exemplo aos homens. Exemplo nas ações más, para que sejam evitadas; exemplo nos bons atos, para que sirvam de conforto e estímulo.

No capítulo VI, Santo Agostinho analisa e pergunta sobre a identidade de Deus, que, pelo estilo literário estético, acabou por se constituir em um dos mais importantes e famosos passos das Confissões. Alguns excertos vão apresentados abaixo:

Quem é Deus? Perguntei à Terra, que me disse: ‘Eu não sou’... Interroguei o mar, os abismos, os répteis animados e vivos, e responderam-me: ‘Não somos o teu Deus; busca-O acima de nós.’ Perguntei aos ventos que sopram; e o ar, com os seus habitantes, respondeu-me: ‘Anaxímenes está enganado; eu não sou o teu Deus.’ Interroguei o céu, o Sol, a Lua, as estrelas e disseram-me: ‘Nós também não somos o Deus que procuras.’ Disse, então, a todos os seres que me rodeiam as portas da carne: ‘Já que não sois o meu Deus, falai-me do meu Deus, dizei-me, ao menos, alguma coisa d’Ele’. E exclamaram com alarido: ‘Foi Ele quem nos criou.’6

E, acaba por concluir:

Ora, a verdade diz-me: ‘O teu Deus não é o céu, nem a Terra, nem corpo algum.’ E a natureza deles exclama: ‘Repara que a matéria é menor na parte que no todo.’ Por isso te digo, ó minha alma, que és superior ao corpo, porque vivificas a matéria do teu corpo, dando-lhe vida, o que nenhum corpo pode fazer a outro corpo. Além disso, o teu Deus é também, para ti, vida da tua vida.7

Vê-se por essas conclusões a que o Santo chegou, que, conforme se disse em outra parte desta monografia, que a antropomorfia de Deus já tinha sido ultrapassada, e o Filósofo já entrara em outro nível de compreensão e de realização do Deus infindo.

Com o capítulo VIII, inicia-se uma série dedicada ao estudo da memória. Abaixo estão transcritos alguns trechos que foram considerados fundamentais na composição da obra.

É lá [no palácio da memória] que me encontro a mim mesmo, e recordo as ações que fiz... A memória é como o ventre da alma... São quatro as ‘perturbações’ da alma: o desejo, a alegria, o medo e a tristeza... Quero alcançar-Vos [ó Deus meu] por onde podeis ser atingido, e prender-me a Vós por onde for possível... Passarei, então, para além da memória, para Vos encontrar... A vida feliz consiste em nos alegrarmos em Vós, de Vós e por Vós. Eis a vida feliz, e não há outra. Os que julgam que existe outra, apegam-se a uma alegria que não é verdadeira... A vida feliz é a alegria que provém da verdade... [A alma] será feliz quando, liberta de todas as moléstias, se alegrar somente na Verdade, origem de tudo o que é verdadeiro... Onde encontrei a verdade, aí encontrei o meu Deus, a mesma Verdade... Eis que habitáveis dentro de mim, e eu lá fora a procurar-Vos como Ser Transcendente.

Já foram feitas algumas referências à essa sublime compreensão que levanta e Illumina o religioso que, por moto-próprio, rompendo com todos os grilhões e lançando fora a canga da ignorância, torna-se cósmica, religiosa e teologicamente uno com a Mente que ele admite que o gerou, a Mente Suprema que ele acaba por identificar dentro de si próprio. O que a Humanidade precisará compreender, para que possa experimentar tal estado de consciência, é que isso não é pré-determinado e destinado a uns poucos escolhidos, mas direito de todo e qualquer existente humano que, um dia, por mérito individual e exclusivo, terá, ou melhor, poderá ter o Privilégio de desfrutar. Nesta altura, fazendo um breve parêntese, é preciso ficar especialmente claro que os caminhos da Illuminação interna de um Religioso e de um Místico são parecidos, mas não são rigorosamente iguais. Mas, isso importa? Penso que o que importe seja a sinceridade de propósito, como foi, por exemplo, consabidamente, a sinceridade dos padres do deserto – homens embriagados de Deus – grupo influente de eremitas e cenobitas que se estabeleceram por volta do século IV no deserto egípcio, e deram origem ao monaquismo oriental. Como disse Santo Antão do Egito, o grande, o protótipo do recluso e do herói religioso para a Igreja oriental: Não mais temo a Deus, mas O amo.

Outro ponto que merece uma observação sucinta, é o que se refere à afirmação do Santo que diz que a vida feliz provém do conhecimento da Verdade. Não se pode olvidar que a Verdade, antes, a cada um e à Sociedade, aparece como verdade, ou seja, relativa, fragmentada e limitada. Cabe, portanto, a cada um e a todos, o dever de tolerar aqueles que ainda não se aperceberam das presumidas Verdades por eles vivenciadas. Até porque, outrossim, pode suceder que aqueles que são considerados hereges, pagãos ou ímpios, podem, talvez, estar na posse de Verdades mais abrangentes, mais transparentes e mais próximas da perpétua e inalcançável Verdade Universal. Nesse sentido, tolerar é preciso; com todos aprender, imperativo e sinal de inteligência. A busca e o Grande Encontro com Deus (de cada Coração) passa, inexoravelmente, pelas virtudes teologais, como também, pela humildade, pela tolerância e pela fraternidade; superlativamente passa pela justiça, e indubitável e obrigatoriamente pelo amor.

Um exemplo marcante de que a Verdade, mesmo em Santo Agostinho, ainda quando as Confissões estavam sendo escritas, não tinha sido plenamente realizada, aparece na afirmação: Nos reveses, anseio pela prosperidade, e nas coisas prósperas, temo a adversidade. Enquanto o homem viver na tentação das ilusões deste mundo, não viverá em Verdade, nem conhecerá a Verdade. E assim ocorre, na luxúria, na gula, na embriaguez, na sedução do perfume e dos olhos, na curiosidade, no orgulho, na paixão da vingança, na tentação do louvor, na vanglória, no amor-próprio e em tantas outras formas de tentação tão bem analisadas pelo Santo Doutor de Tagaste. O insuperável, o belíssimo, o digníssimo, o verdadeiro, o nobre e meritório gesto de Santo Agostinho em dar divulgação formal e por escrito às fraquezas e às misérias que por tanto tempo agasalhou, e que tanto o afligiram e contra as quais tanto lutou, repete-se uma, duas e mil vezes, só pode partir de um ser realmente puro digno e possuidor de um férreo desejo de servir de exemplo por amor à raça humana. É um desprendimento tal que, no mínimo, fará ao mais insensível meditar sobre a vida que tem levado. Aos que já se puseram em caminho e que compreenderam que devem resistir às seduções dos olhos para que os pés... não fiquem presos, a leitura das Confissões é o maior dos incentivos e o mais vivo dos exemplos.

Finalizando este Livro, Santo Agostinho refere-se a Jesus como verdadeiro Mediador, enviado aos homens por Deus como intermediário entre os mortais pecadores e o Justo Imortal.

Livro XI: O Homem e o Tempo

Este livro, basicamente, trata do Gênesis e analisa filosoficamente a essência do tempo.

No capítulo I, o Santo argumenta que, apesar de Deus tudo conhecer, as Confissões têm por finalidade demonstrar e excitar seu afeto para com o Criador e o daqueles que lêem estas páginas, afim de todos exclamarmos: ‘Deus é grande e digno de todo o louvor’. Mais uma vez ficam patentes a inquietação e a preocupação de Santo Agostinho para com os homens, como também – e ele o declara – seu ardente desejo de amar Deus.

A seguir, em outro ponto deste Livro, o Doutor de Hipona inicia a explanação de seu entendimento do Gênesis, ou seja, de como, no princípio, céu e terra foram criados. Para o Santo, todas as coisas existem porque foram criadas, e nenhuma tinha existência pretérita. Na teoria agostiniana, todas as criaturas, num dado instante, foram, por Deus, tiradas do nada, passando, assim, a ter existência. E tudo ocorreu pela Palavra criadora de Deus. No princípio, então, a mente de Deus elaborou e permitiu que o Sagrado Som repicasse pelo Universo, produzindo, criando... continuando a produzir e a criar. Se assim não fosse, já haveria tempo e mudança, e não verdadeira eternidade e verdadeira imortalidade. O Verbo de Deus, Sua Palavra Sagrada, é, por assim dizer, o Princípio de tudo, quer sejam coisas já viventes, quer ainda não.

Tal Verbo, na concepção filosófica e mística de Santo Agostinho, entretanto, neste caso particular, mais mística do que filosófica, deve ser buscado dentro de cada homem – que por Ele tendo sido criado, O contém – onde cada um aprenderá com o bom e único Mestre, a todos ensinando, a todos amando, a todos auxiliando.

Quanto ao que Deus fazia antes da criação do Universo, o filósofo doutor enfaticamente responde: Não sei. Como qualquer elucubração nesse sentido é estéril, fica-se, religiosa e teologicamente, com a humildade do Santo: não se sabe. Entretanto, pode-se, talvez, imaginar e especular que, se houve realmente um antes, este tempo, provavelmente, constituiu-se de uma gestação, uma elaboração minuciosa e detalhada, que, ao fim e ao cabo produziu ordem, harmonia e múltiplo entrosamento. Acaso e improvisação não se coadunam com perfeição, perenidade e organização harmônica. Bem, isso em termos teológicos.

Parêntese: Antes de se prosseguir com a análise das Confissões, questiona-se a teoria agostiniana no ponto relativo à criação a partir do nada. Fica a pergunta: Como o nada pode produzir alguma coisa? Nada é nada, inexistência. A não ser que se argumente que, por se admitir o nada, este já seja, então, algo em potencial, o que, no fim, é um sofisma. A criação, o princípio, é, de certa forma, um grande mistério. Pode-se, meditando, intuindo e, num processo iluminante, conhecer-se apenas pequena parcela do processo cósmico, eis que o homem enquanto homem, é falível em sua percepção do particular, que dirá, na compreensão do todo. Em certa medida, Xenófanes de Cólofon estava certo quando disse: A opinião reina em tudo. Assim, quando se questiona a teoria agostiniana da criação, não se pretende desmontá-la ou demoli-la, porque apesar de se discordar de como o Santo entendeu a origem das coisas, não se discorda de como foi deflagrado o processo – caso este tenha se dado, caso, ciclicamente, tenha havido um antes. Indubitavelmente, no princípio a Palavra estava com Deus e era a própria Mente Cósmica. E ainda é assim! Mas, para haver outra opção é preciso oferecer-se uma hipótese alternativa. Sucintamente, pode-se admitir que a energia universal tenha sido constante desde o princípio. E, no princípio, a Mente Cósmica, se considerada como transcendente, ordenou essa energia primeva e fundamental. Tal ordenação harmônica encaixa-se perfeitamente na doutrina agostiniana. Logo, a questão do nada (que não existe e, por isso, nada pode gerar), sob esse ângulo, desaparece, e o próprio processo da criação torna-se teologicamente mais compreensível e aceitável. Reafirma-se, entretanto, que esta é uma alternativa, esboçada de forma sucinta, com a pretensão de ser tão-somente uma alternativa para meditação e ponderação. Aceitá-la, aprimorá-la, rejeitá-la ou qualquer outro posicionamento, é prerrogativa de cada filósofo. Eu, particularmente, tenho um entendimento completamente diverso de Santo Agostinho, já esboçado em trabalhos anteriores.

Recordando um pouco a Teoria da Relatividade de Albert Einstein (1879-1955), começo perguntando: Afinal, o que é energia? Confesso que eu não sei lá muito bem o seja. Mas, duas coisas parecem ser certas: 1ª) A energia universal total não se altera um 'ésimo' ao longo do tempo que não é tempo (Lei da Conservação da Energia = A Energia Total do Universo Macro é permanentemente igual a UM, ainda que ninguém possa saber o quanto dessa Energia está condensada sob as mais variadas formas de matéria em todas as dimensões de todos os Universos); 2ª) ao abrir uma janela, a energia que 'surge' para que ela se abra é exatamente a mesma que é removida do braço (músculos) de quem a abre (este é um exemplo simples do Princípio de Conservação). É claro, entretanto, que a energia envolvida em um ato de amor não pode ser a mesma (não pode ter a mesma qualidade vibratória) do que aquela veiculada em um ato de horror/terror. Abrir uma janela com delicadeza é uma coisa; abri-la com violência é outra bem diferente. E terrorizar... Bem, terrorizar é um terror! A coisa toda – o incipiente princípio das lucubrações relativísticas einsteinianas – começou em 1905 (o annus mirabilis para Einstein). Segundo Sumaia Vieira et alii, em 1905, Einstein publicou um artigo sobre a Teoria da Relatividade Especial, no qual, basicamente, estabeleceu os seguintes postulados: 1º - Todos os sistemas de referência inerciais em movimento de translação uniforme, uns em relação aos outros, são equivalentes (Princípio da Relatividade); 2º - A velocidade da luz é independente do movimento da fonte emissora. A partir desses postulados, uma série de conseqüências novas na Física foram deduzidas. Uma dessas conseqüências – a famigerada equação E = mc2 – foi apresentada por Einstein também em 1905 em um artigo publicado na revista alemã Annalen der Physik (Anais da Física), com o seguinte título: A Inércia de um Corpo Será Dependente do seu Conteúdo Energético? De um modo mais geral, podemos escrever a seguinte equação para a energia de uma partícula livre: E = K + mc2, sendo E a energia relativística, K a energia cinética da partícula, m a sua massa de repouso e c a velocidade da luz no vácuo. Enfim, o ponto crucial dessa equação é que, mesmo em repouso, qualquer partícula possui energia E = mc2, a qual está associada uma determinada massa. Assim, temos que substituir as leis clássicas de conservação por uma única lei de conservação da energia relativística total: a energia relativística total de um sistema isolado permanece constante. Contudo, existe um engano largamente difundido sobre a interpretação da famosa fórmula de Einstein E = mc2. O Grupo de Ensino de Física da Universidade Federal de Santa Maria oferece uma explicação muito interessante sobre essa matéria. Transcrevo: Esta fórmula é freqüentemente interpretada como significando que massa e energia podem ser convertidas uma na outra, ou seja, que uma parte da massa de um corpo pode desaparecer se no processo surgir uma certa quantidade de energia. Então, massa e energia seriam grandezas não conservadas. Isto não é verdade. Massa é a medida da inércia de um corpo. Energia é a capacidade de realizar trabalho. O que Einstein mostrou na sua Teoria Especial da Relatividade – e que é plenamente aceito por todos os físicos e testado com grande precisão por um sem-número de experimentos – é que se um corpo ganha uma certa quantidade de energia E, sua inércia aumenta de uma quantidade equivalente a E/c2 (onde c é a velocidade da luz no vácuo). E inversamente, se um corpo perde uma certa quantidade de energia E, sua inércia fica diminuída de uma quantidade equivalente a E/c2. Neste sentido, e apenas neste sentido, é usual dizer que massa e energia estão uma associada com a outra ou que existe uma equivalência entre massa e energia. A noção incorreta de que massa pode ser transformada em energia tem origem, provavelmente, nas descrições populares dos processos de fissão nuclear, onde é colocada ênfase no fato de que os fragmentos da fissão de um átomo de urânio têm massa total menor do que a massa do átomo de urânio original, enquanto que uma considerável quantidade de energia parece ter surgido do nada (como energia cinética dos fragmentos, energia da radiação eletromagnética etc.). Considerando, assim, a existência de um Deus transcendente, as coisas não se explicam e não se encaixam. Incontestável é que Ex nihilo, nihil. Nada provém do nada. E nihil novi sub Sole. Não há nada de novo debaixo do Sol. Logo, uma criação divina tirada do nada é uma impossibilidade cósmica, ainda que, teologicamente, se considere Deus como onipotente.

Voltando a Santo Agostinho, quanto ao binômio Deus versus Tempo, o Santo filósofo ensina que o passado e o futuro não existem para a Mente Universal. É um hoje perpétuo, um eterno presente; o hoje, em Deus, é a eternidade. O passado e o futuro são produtos da consciência objetiva do homem; pois se o homem não sobrevivesse, não haveria futuro, e se não tivesse existido, o passado não existiria. O tempo é, na realidade, um todo contínuo, indivisível. A divisibilidade do tempo é operada pela consciência humana, que, por ser limitada, fraciona-o em três partes, de tal sorte a que este possa ser melhor compreendido. E Santo Agostinho, referindo-se às três divisões do tempo usualmente procedida pelo homem, rechaça passado e futuro dizendo: O passado ‘já não existe’ e o futuro 'ainda não existe.’ Entretanto, sobre o futuro – compreensão que o Santo diz estar acima de sua inteligência – complementa: ...as coisas futuras ainda não existem; e se ainda não existem, não existem presentemente. De modo algum podem ser vistas, se não existem. Mas podem ser prognosticadas pelas coisas presentes que já existem e se deixam observar. Por tudo o que foi dito sobre o tempo, pode-se, então, a ele aplicar uma terminologia diferente, sendo, por isso, impróprio falar em passado, presente e futuro. Tal terminologia, proposta pelo filósofo, relativa aos tempos é: presente das coisas passadas, presente das presentes e presente das futuras.

O Santo prossegue nas suas lucubrações a respeito do tempo, e, talvez, possa-se ainda enriquecer a sucinta análise deste Livro, pinçando um pensamento do capítulo 30 que diz: ... nenhum tempo pode existir sem a criação... Entretanto, conforme se afirmou anteriormente, o tempo só admite divisibilidade na consciência do homem. É, por assim dizer, um tempo psicológico, produto da necessidade do homem em entender sua existência no mundo e relacioná-la com o que está à sua volta. O passado, o presente e o futuro existem para o homem apenas e tão-somente enquanto homem. Portanto, assim como o som que só existe como som quando há um órgão biológico que decodifica suas vibrações como som, o tempo também só apresenta divisibilidade na mente humana, em sua mente objetiva.

Finalizando o estudo do Livro XI, deseja-se citar Eric Temple Bell, referenciado no livro O Despertar dos Mágicos, de Pauwels e Bergier: Não se deve acreditar que o tempo decorrido regressa ao nada: o tempo é uno e eterno, o passado, o presente e o futuro não passam de aspectos diferentes – gravuras diferentes se se preferir – de um registro contínuo e invariável da existência perpétua... Passado, presente e futuro ‘são’. Talvez seja apenas a consciência que se desloca.

Livro XII: A Criação Agostiniana

Este livro, fundamentalmente e simultaneamente, aborda a questão da origem do mundo, discute a interpretação alegórica da Bíblia e questiona a existência da matéria-prima de Aristóteles. Santo Agostinho entende que Deus, conforme anteriormente mencionado, ao criar, o faz, criando as coisas do nada. Assim, na concepção do filósofo, céu e Terra foram criados de algo que é nada, sem ser da própria substância de Deus, e, por isso, de modo nenhum seria justo que fossem iguais a Deus. Não se discutirá aqui tal pensamento, pois já foi analisado anteriormente. Retomou-se o tema como ponto de partida para a análise do penúltimo livro que compõe as Confissões, uma vez que a origem do mundo é dele parte basilar. Assim, na doutrina agostiniana, céu e Terra foram feitos do nada: um céu grande e uma Terra pequena.

Diz ainda Santo Agostinho: Criastes, portanto, Senhor, o mundo, da matéria informe. Criaste do nada este quase-nada, donde, depois, fizestes as grandes coisas, que nós, os filhos dos homens, admiramos. O Santo, neste Livro, reconhece novamente suas fraquezas passadas. Mas, agora, de forma mais mística, em um nível espiritual mais elevado, já distante da Noite Negra que havia superado. Assim, faz a seguinte invocação:

Agora, ardente e anelante volto à Tua frente. Ah! Ninguém me impeça; beberei, e assim viverei. Oxalá eu não seja a minha própria vida! Por minha culpa, mal vivi; causei-me a morte. Em Vós revivo. Falai, conversai comigo.

Outro ponto interessante do pensamento agostiniano, é a aceitação literal das palavras da Bíblia, no que se refere à criação do mundo. O Santo aceita, e em várias passagens faz referência aos ensinamentos bíblicos, admitindo que na criação... tudo foi feito em dias sucessivos. Nesta oportunidade, uma vez mais, questiona-se a compreensão do Filósofo sobre a criação. Assim, teologicamente pondera-se: por que a Mente Cósmica, ao ordenar e harmonizar a energia universal na programação para o infinito, não o teria feito em eras, ao invés de apenas em dias? Em outras palavras: não teria a criação, ou melhor a manifestação da energia universal como hoje a concebemos, sido elaborada, organizada e transmutada em várias eras (espaços de inexistentes tempos imensamente grandes), ao invés de, apenas, em poucos dias? Não é incompatível a idéia de rapidez com o que a própria Natureza demonstra, a cada instante, nos processos de criação? E por que acreditar que Deus haveria de criar o Universo todo em apenas poucos dias? Por que a rapidez? Estaria Deus sentindo-se só? Triste? Precisando de companhia? Entediado? Ou a criação do mundo é um processo cíclico que a própria mente humana é incapaz de conceber, quanto mais de entender e de adequadamente visualizar? Ou a criação do mundo, conforme está descrita na Bíblia, é uma alegoria que a religião católica ainda não decifrou, e se decifrou não divulga porque não interessa divulgar? Mânvântâra... Prâlâya...

Desta forma, este é mais um ponto para meditação, onde o dogma é pura e simplesmente inaceitável, por ser limitativo, autoritário e sentencioso. Este é um dos pontos onde a fé se contrapõe à razão, onde a humana compreensão só poderá encontrar algum alívio para suas dúvidas meditando e interiorizando sua consciência, a fim de, por si e em harmonia com o Deus de seu Coração, intuitivamente, ter acesso à resposta. Como ensinou o inesquecível Krishnamurti, é preciso, é fundamental, é necessário deixar de lado ‘toda e qualquer autoridade' para que cada um descubra por 'si mesmo'!

No que concerne à interpretação bíblica da criação do céu e da Terra, é necessário acrescentar que, para o Santo, o céu deve ser entendido como o lugar acima do nosso céu (céu do céu) onde habitam os Santos Espíritos, os seres espirituais que têm o privilégio de gozar da vida de Deus, onde a inteligência conhece simultaneamente não por partes, nem por enigmas ou como um espelho, mas inteiramente com toda a clareza, face a face. Por Terra, entende ser a matéria desorganizada e privada de forma e de onde vieram todos os seres manifestos em corpos distintos e de várias formas.

Mas, já quase ao término desta magnífica e imorredoura obra, com satisfação exalto a já observada personalidade tolerante e liberal do Santo filósofo. Tudo em decorrência do que atrás foi comentado, como do que consta, principalmente, dos capítulos 16, 17 e 18 deste Livro, nos quais Santo Agostinho não condena, e portanto tolera e aceita, outros modos verdadeiros de interpretar o Gênesis. Três excertos sublinham e enfatizam a presente convicção:

A todos aqueles que não têm como falsas estas verdade... e que, não obstante, nos contradizem em alguns pontos, dirijo estas palavras: ó meu Deus, sede Vós o árbitro entre as minhas confissões e as suas contradições.

... que me interessa que se dêem sentidos diferentes àquelas palavras, se todos são verdadeiros?

... que me interessa que outro tenha uma opinião diferente da minha, se julga ser esse o verdadeiro pensamento do Escritor?

Nesse sentido, cabe, portanto, um grande louvor e reconhecimento ao Doutor da Igreja Católica Aurelius Augustinus, que, pela via devocional, alcançou o Deus de seu Coração, não desprezando, entretanto, outras vias de acesso, como a mística e a científica, entre tantas. Aliás, o verdadeiro Illuminado compreende que todos os caminhos levam à realização do Deus interior. Só a mente intolerante nega outras correntes de pensamento e, autoritariamente, crê ser privilégio exclusivo seu e de sua confraria o conhecimento do que ela entende ser a verdade, verdade que, geralmente, pouco tem a ver com qualquer fragmento da Verdade (relativa) sempiterna. Assim, entende-se que a Illuminação interior é um conjunto de muitas virtudes, dentre as quais destaca-se superlativamente a tolerância.

Um outro aspecto da acuidade interior que desenvolveu Santo Agostinho e fundada, conforme já se afirmou preteritamente, entre outras virtudes, na tolerância, aparece quando afirma que Cada um pode haurir a parte da verdade que é capaz, uns de uma maneira, outros de outra... Por esse motivo, a liberdade de expressão só não é tolerada por aquelas mentes mesquinhas, que acreditam estar a verdade exclusivamente a seu serviço, já que elas pretendem-na possuir por um método e um processo a que só elas podem ter acesso. Por isso, muitos confundem Privilégio com privilégio e Direito com direito, fazendo uso mental dos dois vocábulos (privilégio e direito) da mesma forma, permanecendo, às custas da vaidade, invariavelmente no mesmo lugar.

Finalizando a análise deste Livro, ressalta-se e louva-se o apelo de Santo Agostinho, que é deste estudante também: Senhor, inspirai-me! Só pela Illuminação desaparecem a ilusão e as convicções errôneas dela decorrentes. Só pela Illuminação será alcançada a paz, a verdadeira Paz Profunda.

Livro XIII: A Paz

Este é o último Livro que compõe as Confissões, no qual o Santo demonstra, através de uma profunda exaltação lírica, seu intocável e inabalável sentimento religioso, tendo a convicção interior e a esperança fundada do repouso no Criador.

No início deste Livro, no capítulo I, o Santo acredita e ensina que a vida deve ser vivida para servir e honrar ao Criador. Assim diz: Devo servir-Vos e honrar-Vos para que a felicidade me venha até mim de Vós, de quem recebi a existência e a aptidão para gozar do bem.
O Santo afirma que os seres espirituais têm mais valor do que o mais organizado dos corpos materiais, e que, por sua vez, vale mais que o puro nada. Como já se fez referência à questão do nada, comentar-se-á apenas o primeiro degrau da afirmação.

Se se admitir, especulativaemente, a progressão dos três reinos conhecidos, mineral, vegetal e animal – com o homem fazendo parte do reino animal ou constituindo um reino à parte, o que é mais correto – e a seguir o mundo ou plano espiritual, o que representa uma simplificação incorreta do conteúdo do Universo em manifestação, a concepção agostiniana está correta. Mas, se se admitem outros planos de manifestação para a energia universal, a precedência ensinada pelo filósofo sofre restrições. E, se se aceita que exista um processo evolutivo (ou reintegrador) na manifestação da energia universal onde nada é, mas tudo está, onde, segundo Hegel, o vir-a-ser, o devir, está incorporado e indissoluvelmente amalgamado ao processo de existência e de manifestação de tudo, a restrição ao conceito ora discutido cresce e se torna mais evidente. Em um lapso do tempo que não é tempo, algo pode ser melhor e mais valioso, mas se se compreende que o ilusório tempo é uno, que tudo muda, e que há uma permanente convergência para o Todo, não há em verdade, melhor nem pior; há, ao contrário, mais ou menos harmonia relativamente ao que se possa considerar como o ponto final – que não existe como tal – do propósito divino – que não tem propósito algum e apenas é divino porque o qualificamos com tal. Nesse sentido, outrossim, a teoria do nada, é insustentável, conforme já se teve oportunidade de a ela fazer referência.

No capítulo 5, o Hiponense mostra seu entendimento sobre a Divina Trindade e afirma: E, como eu acreditasse que o meu Deus é Trino... Eis a Vossa Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. Eis o Criador de toda criatura.

Já no capítulo VIII, numa profunda exaltação, Santo Agostinho diz: ... tudo me corre mal fora de Vós, e não só à volta de mim, mas até em mim. E continua: Toda a abundância que não é o meu Deus, é para mim indigência. A singeleza deste pensamento faz lembrar a conversação que Sócrates teve com o sofista Antifão, relatada por Xenofonte. Provocado por Antifão, com o intuito de tomar a Sócrates seus discípulos, entendeu de criticar a vida simples e a alimentação frugal que praticava o filósofo, Sócrates ensinou a Antifão, entre outros, o seguinte princípio: ... Quanto menos necessidades se tenha, mais nos aproximamos... da divindade. E como a divindade é a própria perfeição, quem mais se avizinhar da divindade, mais próximo estará da perfeição.

Depreende-se que Santo Agostinho e Sócrates – este no relato de Xenofonte – acreditavam que a vida deve ser vivida e voltada para o Deus que o homem compreende no íntimo de seu Coração. Fora desse contexto é a ilusão. Ilusão da falsa felicidade. Ilusão dos alimentos impróprios que lentamente destroem a saúde. Ilusão das vestimentas sofisticadas. Ilusão da posse dos bens materiais. Ilusão, enfim de estar vivendo, quando, segundo os conceitos socrático e agostiniano, em verdade, quem assim vive, não vive, podendo, entretanto, até parcial e infimamente viver, sem contudo jamais Viver. Só na boa vontade de Deus os homens encontrarão a paz, pensamento que permite digressionar até Kant e afirmar que, também, só com boa vontade a Paz Perpétua será efetivamente alcançada. Boa vontade é amor. Boa vontade é caridade. Boa vontade é humildade, aceitação, compreensão, tolerância e também um profundo sentimento de justiça e de moralidade. Entretanto, conceber estas coisas, só é possível com paz interior, a paz que foi rapidamente referida ao final da análise do penúltimo Livro das Confissões. Essa paz interior – a verdadeira Paz Profunda – é que, no entender do Santo Doutor, permite contemplar Deus no seu aspecto trino, isto é, realizar o sonho de a Deus se unir no TaV de todas as experiências, no TaV onde tudo é harmonia, beleza, amor e perfeição. É a mais desejada realização de todo místico e certamente foi a meta que norteou Santo Agostinho após sua conversão.

Na doutrina agostiniana, a verdadeira ciência está com e em Deus. Somente com e em Deus. Justifica tal conceito pelo fato de Deus ser imutável em existência, em sabedoria e em vontade. Nesse sentido, adverte que a essência de Deus sabe e quer imutavelmente... é e quer imutavelmente... é e sabe.

No capítulo 18, o Santo Doutor fala da caridade e adverte que o socorro ao próximo não deve ficar restrito apenas às coisas fáceis... mas também obsequiá-lo com uma proteção forte e vigorosa. E, mais adiante, no capítulo 26, como que complementando seu entendimento a respeito das obras caritativas, diz: Até mesmo nos que dão esmola, o ‘fruto’ não é o que eles dão, mas o espírito com que a oferecem. É exatamente como lembra Gibran em O Profeta: pouco se dá quando se dá das próprias posses. A dádiva, a verdadeira caridade aparece e se faz patente quando o homem dá de si próprio, se empenha, se compromete, se envolve e, tangenciando o amor universal, entrega-se sem limites. A caridade quando assim praticada faz do homem real instrumento da Consciência Cósmica, e o confunde com a autenticidade do universo.

No capítulo 19, o filósofo ensina como os justos devem proceder para que a terra enxuta (Alma que pratica o bem) se manifeste:

Aprendei a praticar o bem, prestai a justiça ao órfão, mantende os direitos da viúva... Se quiser conseguir a Vida, guarde os mandamentos e aparte de si a amargura da malícia e da iniqüidade; que não mate, não cometa adultério, não roube, não pronuncie falsos testemunhos, para que apareça a ‘terra enxuta’ e germine o respeito ao pai e à mãe, e o amor ao próximo... Arranca os silvados densos da avareza, vende quanto possuÍs, enche a tua alma de frutos, dando tudo aos pobres, e terás um tesouro no céu...9

Analisando o conjunto da criação, assunto do capítulo 32, Santo Agostinho, que no capítulo 24 já afirmara eu diria, meu Deus, que nos criastes à Vossa imagem, explica seu conceito:

Vemos o homem, criado à Vossa imagem e semelhança, constituído em dignidade acima de todos os viventes irracionais, por causa de Vossa mesma imagem e semelhança, isto é, por virtude da razão e da inteligência. E assim, como na sua alma há uma parte que impera pela reflexão e outra que se submete para obedecer, assim também a mulher foi criada, quanto ao corpo, para o homem. Ela, possuindo, sem dúvida, uma alma de igual natureza racional e de igual inteligência, está, quanto ao sexo, dependente do sexo masculino, assim como o apetite, de que nasce o ato, se subordina à inteligência para conceber da razão a facilidade em ordem ao bom procedimento.10

No que tange à síntese da evolução do Universo, ou seja, as obras criadas por Deus, estas têm princípio e fim no tempo. Tudo que começa, que se manifesta, tende ao entardecer. Há um ciclo a ser cumprido: nascimento, manifestação, progresso, decadência e desaparecimento. E, quanto ao simbolismo da criação, o Santo entende que, no conjunto as obras de Deus são mais belas do que isoladamente. Cada elo, assim, é importante para a existência da corrente. E, por serem todas as obras de Deus, foi que, na parte primeira das Confissões, o Santo adverte que é um erro lamentável lançar impropérios contra a Natureza e contra os seres criados por Deus. A compreensão ou o julgamento de fatos isolados, leva ao erro. Um exemplo típico é a chamada morte. A teimosia das pessoas em olhá-la isoladamente é que gera a dor lancinante, quando da perda de um ente querido. Mas, quando se compreende que o ciclo vital só se completa com a morte – transição no estado da consciência – a dor pela ausência se torna mais suportável e o fardo mais suave. Assim, nada mais exato na doutrina agostiniana do que olhar e conceber o Universo como um todo, como uma gigante célula, onde o que aparece isolado, aparece isolado pelas limitações e pela ignorância do homem.

Reflexão Final

Já ao final das Confissões, o Santo requesta a Deus pela paz, a paz do sábado que não entardece. É, talvez, o mais ardente desejo do místico em sua caminhada pela senda: o desejo de estar, consigo e com todos, em Paz Profunda. A paz do silêncio. A paz da tolerância, da compreensão e da fraternidade. A paz de viver em justiça. A paz da ausência de desejos, da ausência de impaciência, da ausência de querer. A paz da virtude e da beleza inefáveis, onde o homem comunga com o Deus de seu Coração. Tudo é tranqüilidade, tudo é ordem, tudo é harmonia. Essa foi a busca de Santo Agostinho. De maniqueísta a Santo; de ladrão a Bispo de Hipona; de pecador a exemplo de virtude. Santo Agostinho, exemplo vivo de pertinácia em busca de Luz, alcança a compreensão dos mistérios da vida e da Vida pela via devocional, onde se observa um insuperável amor ao Deus de sua compreensão, e que o conduziu à realização maior da vida de todo buscador: a Revelação pela Illuminação interior.

bliografia:
  • ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. Tradução de Alfredo Bosi com a colaboração de Maurice Cunio et al. 2ª ed. São Paulo: Mestre Jou, 1982.
  • AGOSTINHO, Santo. Confissões. Trad. J. Oliveira Santos, S.J. e A. Ambrósio de Pina, S.J. 4ª ed. Porto: Livraria Apostolado da Imprensa, 1952.
  • AGOSTINHO, Santo. Confissões; De magistro. Tradução de J. Oliveira Santos, S.J., A. Ambrósio de Pina, S.J. e Ângelo Ricci. 3ª ed. São Paulo: Abril Cultural, 1984.
  • BIBLIA. Bíblia Sagrada. 9ª ed. São Paulo: Ed. Paulinas, 1958.
  • BORNHEIM, Gerd A. Os filósofos pré-socráticos. São Paulo: Cultrix, s.d.
  • CABALLERO, Alexandre. A filosofia através dos textos. 2ª ed. São Paulo: Cultrix, 1972.
  • CONFÚCIO. Os anaclectos. Tradução de Múcio Porphyrio Ferreira. São Paulo: Pensamento, s.d.
  • GIBRAN, K. Gibran. O profeta. Tradução de Mansour Chalita. Rio de Janeiro: Apex Gráfica Editora Ltda., 1976.
  • KANT, Immanuel. A paz perpétua. Tradução de Rhaphael Benaion. Rio de Janeiro: Coeditora Brasílica, 1939.
  • KRISSHNAMURTI. J. A importância da transformação. Tradução de Hugo Veloso. 3ª ed. São Paulo: Cultrix, 1961.
  • MONDIN, Battista. Curso de Filosofia. Tradução de Benôni Lemos; revisão de João Bosco de Lavor Medeiros. V. I. São Paulo: Edições Paulinas, 1983.
  • MONDIN, Battista. Curso de Filosofia. Tradução do italiano de Benôni Lemos; revisão de João Bosco de Lavor Medeiros. V. III. São Paulo: Edições Paulinas, 1983.
  • MONDIM, Battista. Introdução à filosofia: problemas, sistemas, autores, obras. Tradução de J. Renard; revisão técnica de Danilo Morales; revisão literária de Luiz Antonio Miranda. São Paulo: Edições Paulinas, 1983.
  • MORA, José Ferrater. Diccionário de filosofia. 5ª ed. V. I. Buenos Aires: Ed. Sudamericana, 1965.
  • PAUWELS, Louis e BERGIER, Jacques. O despertar dos mágicos (Introdução ao realismo fantástico). Tradução de Gina de Freitas. 17ª ed. São Paulo: Difel, 1981.
  • PLATÃO. Defesa de Sócrates/Platão. Ditos e feitos memoráveis de Sócrates/Xenofonte. As nuvens/Aristófanes. Seleção de textos de José Américo Motta Peçanha. Tradução de Jaime Bruna, Líbero Rangel de Andrade e Gilda Maria Reale Starzynski. 3ª ed. São Paulo: Abril Cultural, 1985.
  • REALE, Giovanni e ANTISERI, Dario. História da Filosofia. Vol. I. São Paulo: Edições Paulinas, 1990.
Notas:

1. MONDIN (1983), v. 1, p. 136.

2. AGOSTINHO, (1984), pp. 29, 30 e 31.

3. _____, (1984), pp. 43 e 44.

4. _____, (1984), p. 82 e 83.

5. _____, (1984), p. 134 e 135.

6. ____, (1984), pp. 174 e 175.

7. ____, (1984), p. 175.

8. ____, (1984), p. 239.

9. ____, (1984), p. 272.

10. ____, (1984), pp. 285 e 286.

Páginas da Internet e Websites Consultados:

http://www.padresdodeserto.net/

http://www.ensayistas.org/critica/generales/
krausismo/autores/salmeron.htm

http://www.hottopos.com/harvard3/jmagost.htm

http://www.beatrix.pro.br/educacao/agostinho.htm

http://www.mundodosfilosofos.com.br/agostinho.htm

http://pt.wikipedia.org/wiki/Agostinho_de_Hipona#Influ.
C3.AAncia_como_te.C3.B3logo_e_pensador

http://pt.wikipedia.org/wiki/Agostinho_de_Hipona

Nenhum comentário:

Sites interessantes